Eu sei o que você está sentindo...
Dizemos isso procurando ser (sim)páticos em relação ao outro, mas na verdade, nunca saberemos o que o outro está sentindo, somos limitados por nossa condição reduzida a nós mesmos. A idéia da empatia só pode ser afirmada plenamente nos termos de uma ficção, como a que aparece nos dois filmes: "Energia Pura" e "A espera de um milagre". Nesses casos, os personagens seguram firmemente o outro para que sinta e veja tudo o que se passa na vida do outro, tudo que experimenta em uma dada situação: um animal que está sendo abatido covardemente e a verdadeira história de um crime violento não resolvido.
Nos dois casos, ao entrar em contato com a agonia do outro, os indivíduos percebem a impossibilidade de sentir o sentimento do outro, impossíbilidade de não poder se deslocar de si mesmo e a impossibilidade do desejo de entrar na situação alheia e dolorosa. São situações da experiência limite de morrer. O afeto de morte é insuportável no corpo de quem não está morrendo. Morrer é um afeto único e solitário, mesmo que se morra lado a lado. É preciso estar experimentando a própria morte em vida, mas ainda assim tratar-se-ia da própria morte e nunca o morrer do outro.
Como podemos dizer a uma pessoa em depressão profunda, eu sei o que você está sentindo? Jamais saberemos, mesmo que tenhamos uma depressão igualmente profunda. Só temos a capacidade de vivenciar a nossa própria depressão. Assim como as caminhadas, o que o outro está sentindo é sempre da ordem de uma solidão não compartilhada pelos outros caminhantes. São situações irredutíveis, sentimos sozinhos, a dor e a alegria são experiências singulares. Dizer a alguém: “Eu gostaria muito de sentir o que você está sentindo”, é falso. Na verdade, não é da natureza desejar sentir dor, sofrimento e desprazer. Ignoramos nossos instintos que nos levam a evitar a dor e a buscar o prazer.
Ao “segurar a mão” do sofredor, diminuimos a impotência de não podermos sentir a miséria do outro simpaticamente. Nunca poderemos deixar de ser nós mesmos para nos tornarmos o outro, nisso consiste todo o sentido de nossa autonomia. Só podemos ser nós mesmos. E isso nem mesmo se trata de uma questão de escolha. Estamos presos nessa condição de não podermos viver a vida nem os sentimentos do outro. Mas, ao demonstrar simpatia, já estamos chegando perto o suficente para que o outro possa ser minimamente acolhido. Isso faz muito bem a quem recebe e a quem dá.
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