Indefinidos...
Os indefinidos é uma estratégia de combate da vida. Os nômades souberam transformá-los em uma máquina de guerra. Tal máquina se caracteriza pela capacidade de deslocamentos contínuos, o que põe tudo em estado de indefinição. Nesse sentido, é inútil construir muralhas para impedir a passagem dos nômades através das fronteiras, eles não têm interesse no poder do Estado, estão sempre de passagem para um outro lado, nesse sentido, não é do Estado que se servem. É só um procedimento de passagem, cruzar linhas, fazer dos mapas as suas próprias linhas de fuga. Uma máquina que não tem a guerra como objeto, não derrama sangue e não mata. A máquina de guerra nômade não é uma propriedade de um grupo, é um modo de vida que se subtrai da própria vida, uma imitação da vida. Um modo de escapar, de se esquivar das condições intoleráveis no mundo que tem como finalidade a definição da vida em formas de expressão: feio/bonito, baixo/alto, morto/vivo, pobre/rico, homem/mulher, diabo/deus. O traço que separa um do outro e define se você é isso ou aquilo. Síntese exclusiva que leva o pensamento à ilusão da verdade.
É preciso introduzir um terceiro termo, é quando tudo se embaralha, ao entrar em cena um estranho indefinido, um que não é isso nem aquilo, que não se identifica com a forma de expressão previamente dada. Perguntar-se-á sobre a sua natureza anômala: se não é isso nem aquilo, o que será então? Um indefinido que instaura uma máquina de guerra contra o império das segmentarizações do sistema da língua oficial. Aprendemos a ver e ouvir por padrões de medidas definidoras, o que nos faz cegos em relação a todo o resto desmensurado universo da vida. Isso nos faz pensar que, paralelamente aos sentidos, passam mundos não percebidos, apenas pelo fato de não entrarem na lógica da forma-expressão a que estamos condicionados. Quando os indefinidos entram nas definições, são as próprias definições que os excluem.
O terceiro excluído - o que não é isso nem aquilo - só o é incluído por força de uma segmentaridade exclusiva. Ele passa a ocupar um terceiro lugar, pois na inclusão, permanece como o “terceiro excluído”, é o marginal, o feiticeiro, o anômalo, o anormal, o louco, o demônio, o gay, o estranho a ser evitado. Vemos nessas formas indefinidas, uma arma de guerra, um modo de se salvar das predeterminações que julgam a vida. Entrar na zona de um indefinido é entrar em linhas indiscerníveis de metamorfoses.
Na verdade, não somos assim, isso ou aquilo, somos uma multiplicidade molecular. Mesmo quando nos definimos homem ou mulher, no nivel molecular pemanecemos na zona de vizinhança de “n sexos”. Para o terror moralista, tudo o que se encontra na vida, banhado no mar da multiplicidade molecular, está inexoravelmente conectado pela conjunção “e”, somos isso e aquilo ao mesmo tempo, homem e mulher, humano e animal, deuses e demonios, tudo ao mesmo tempo. E o próprio deus é a causa da vida e da morte, da luz e das trevas, substância única para todas as formas que variam segundo os afectos que nos afetam. O terceiro nunca esteve excluído do campo de possibilidades que é o indefinido.
A vida só é definida em seu processo de demolição contínua... o que nos lança na mais aguda incerteza...
ResponderExcluirQue processo acontece na vida que arranca de nós ou de alguém a máscara do dualismo e da moralidade? Que força vem e como vem com potência para nos abrir as possibilidades da vida? Ela vem ou nós vamos? ou é um encontro?
ResponderExcluirEncontros fortuitos, ao acso dos acontecimentos e dos acidentes da vida. Muitas vezes é possível facilitar tais encontros, lendo um livro, vendo um filme, contemplando uma obra de arte, vivendo e embriagando-se... de qualquer modo, trata-se de encontros e afetos. Amando!
ResponderExcluirLindo texto!
ResponderExcluirQue belo exemplo nos dão os nômades, deslocam-se, indiferentes às fronteiras do poder. Estão sempre ocupando um não lugar, estão em qualquer lugar E em todos os lugares, é isso que os torna potentes.
Ficarei mais atenta às possibilidades de traçar minhas próprias linhas de fuga.
Cristina
Entrar em devires imperceptíveis e criar uma longa linha de fuga, quebrando-a sempre que for necessário escapar. Você pegou o sentido político da fuga, não é fuga dos compromissos, mas do intolerável.
ResponderExcluirIsso mesmo!
ResponderExcluirFugir do intolerável é muito mais potente, muito mais criador e criativo do que cultivar ressentimentos.
Cristina
Joseph K., o agrimensor em "O castelo" de Kafka, afronta o intolerável. Ele não desiste nunca, mesmo impotente diante da máquina burocrática do castelo, permanece lá atormentado e atormentando. Na verdade é Kafka quem afronta o poder que se esconde por trás da burocracia, através de seus personagens, ele debocha da soberba dos maiorais que fazem da burocracia o seu castelo de devaneios.
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