Normalidade

A marca da normalidade é um traço abstrato no horizonte da vida. O que isso significa? Foi preciso muito tempo para que as forças da cultura respaldadas na autoridade dos saberes definissem a linha binária que levou o pensamento a acreditar nas coisas reduzidas em dois: certo-errado, bem-mal, feio-bonito, morto-vivo, homem-mulher, normal-anormal. E o normal, o certo, o justo e o bom etc. são as formatações da linha. Estar em harmonia com a linha ou estar alinhado é o mesmo que estar de bem com a norma abstrata da linha. Quem define os limites da norma? O poder embasado nos saberes: ciência, teologia, moral, direito, política, dentre outros, a família cumprindo o papel do Estado, a religião, a escola, o exército.
A Lenda de Procusto ilustra melhor a questão: vem da mitologia grega o mito que se chama “Leito de Procusto”, que diz o seguinte: Procusto era um bandido que vivia em uma floresta e tinha uma cama de tortura. Parecia ser hospitaleiro quando convidava os passantes para se hospedarem em sua casa. Ele oferecia aos hóspedes a sua cama. A questão é que todos eram presos e colocados por ele em seu leito para se ajustarem. Os que eram muito grandes, Procusto cortava os seus pés; e os que eram muito pequenos, os esticava para que se ajustassem. O tamanho do leito de Procusto era do tamanho dele mesmo. Dizem que, caso o indivíduo se ajustasse à cama sem que fosse preciso ser esticado ou cortado, Procusto o adorava, ficava satisfeito consigo próprio e restituía tudo que havia roubado do viajante. Nesse sentido, o tal Procusto ocupava uma posição de normalizador.

O conceito de normalidade está vinculado à noção de homogeneidade e de continuidade. Ao contrário da vida que em sua singularidade pré-individual é heterogênia, é povoada por multiplicidades. Um ser vivo, tal qual se apresenta, é a solução funcional encontrada pela vida ao responder às exigências do meio em que vive. Não há padrão que defina normalidade sem que com essa operação, de normalizar, de atingir a uniformidade, não aleije, torture e destrua a singularidade e a beleza da única coisa que realmente repete na existência, a diferença. Normalidade é um conceito político, oriundo da relação de poder. O normatizador é um dominador e o normatizado é o dominado.

É da relação essencial da vida com o meio, relação esta necessária e anterior às formas de indivíduos e de qualquer norma, que se pode pensar em algum tipo de normalidade. Ou seja, normal é a variação normativa da vida que não é regida por nenhuma norma exterior a ela mesma: religião, família, escola e os saberes deveriam estar a serviço da singularidade e da variação, única norma que está relacionada à vida e não ao traço arbitrário do normal. As instituições, quando exercem o poder de repressão à vida, estão como Procusto, cerrando e esticando para ajustar os indivíduos às normas. Por isso, normas são invariavelmente quebradas.

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