Um deus...




        Nos dias em que a natureza mostra a sua força devastadora, fala-se mais de Deus. Um sobrevivente solitário e ilhado nas montanhas pode enterrar seus familiares ao mesmo tempo em que declara, “foi por Deus...”. Outros tantos, em meio ao cenário devastado, tendo perdido tudo, igualmente repetem, “só Deus...”. No silêncio, que segue o final de cada sentença fica a impotência dos sujeitos que, por um lado, não “podem” atribuir à Deus a causa final de suas tragédias, por outro lado, atribuem a Ele a razão do pouco que lhes restaram. É mais fácil se comportar assim, dizendo “Deus” no lugar de tudo o mais que se possa pensar, dizer ou fazer ou evitar tragédia ainda maiores. De certa forma, o ser humano derrotado pela dor , em seu silêncio, responsabiliza Deus. Em algum lugar, disseram que pelo menos os justos não sofreriam nenhum dano. Mas não é assim que ocorre normalmente, o avião cai e morrem “justos e injustos”. 

Ninguém pode dizer que um bebê de seis meses seja injusto, o fato é que todos estão sujeitos às tragédias, havendo ou não Deus. Todo organismo vivo morre. Isso não deveria ser causa de ressentimento em relação a um ente (Deus ou o Diabo). Qual é o sentido então da crença no Deus que “abandonou” as suas criaturas? Parece que na falta de sentido  Deus é sentido como o sentido. Talvez seja por isso que os três deuses dos três monoteísmos tenham nascido das areias do deserto. De qualquer maneira, o homem precisa crescer e produzir seu próprio sentido, acreditar no mundo, ter fé no mundo e não no além mundo. É no mundo que o homem se encontra numa situação “óptica e sonora”. É a sonoridade e a visão do mundo que o homem  perdeu, e assim perdeu também a fé no mundo. Vemos e ouvimos muito pouco do mundo, por isso somos um corpo estranho no mundo, andamos em descompasso com ele. O sistema sensório motor do homem vê um mundo distorcido por uma finalidade narcísica. Pensa-se que o homem é dono do mundo, o homem como senhor que domina o mundo. Sofremos a consequência da dualidade que fende os indivíduos e o mundo como se não fossemos nós mesmos mundo. Colocamo-nos acima do mundo como criaturas superiores tendo Deus (algumas vezes quando nos alegramos, estaria do nosso lado) como nosso aliado e a natureza (quando contraria nosso nazicismo) como uma ameça a ser dominada. 

A outra emergência da vida trata-se de uma nova concepção de Deus para que o velho homem seja reiventado. O Deus da criação humana é o produto dos afetos que nos afetam. Quando o afeto é de felicidade, é porque Deus nos ama e nos protege. Portanto, uma geração feliz deveria ser a que Deus cuida melhor. Quando o afeto é de tristeza, é porque Deus nos abandonou, deve estar nos provando ou é coisa do demônio. Tal concepção deve ser reinventada tendo como referência a lógica da Vida. Ou seja, a vida é demolição, mas de uma inocência cruel. Os organismos vivos se equilibram na fina esteira entre as pulsões de vida (Éros) e de morte (Thanatus), tais forças são atéias e órfãos. Quando nos protegemos, criando uma civilização; casando, amando, proliferando, é a pulsão de vida que nos orienta. Quando uma força irrompe desorganizando a ordem, é a pulsão de morte que mostra o seu rosto assustador. Mas é da própria vida que a pulsão de morte dá o seu sinal, jogo de forças que compreende o próprio movimento, conservação e destruição. A  reversão da visão alienada em um Deus seletivo - que ama e despreza segundo a sua vontade soberana - certamente se acha no plano da Vida. É a Vida e o mundo que se perdeu ante nossas crenças mais sagradas.

Comentários

  1. As pessoas nem param pra pensar sobre a idéia de deus. Pessoas imaginam deus por conclusão própria ou acreditam no telefone sem fio, que a cada segundo supõe a moral divida de um jeito mais conveniente?

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  2. Conclusão inadequada por afectos. É assim que o homem inventou os finalismos. Acredita que o céu é azul para um fim pessoal, que os pássaros cantam para embalar o sono, que o mundo é uma sinfonia suave porque alguém lhe ama, etc. Alguém apaixonado (a) tira as mesmas conclusões em adequação ao seu desejo: o dia amanheceu belo e ensolarado, então pode ser o sinal de deus para a união amorosa tão desejada, etc., etc., etc.

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  3. E novamente caímos na dualidade falada no texto INDEFINIDOS. Será que não podemos ser Deus e Diabo ao mesmo tempo? Reinventemos o homem!
    Esse texto também é lindo!

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  4. Sim Cristina, você pode estar certa quando volta a questão para o indivíduo que põe em perspectiva essa questão. Ele mesmo, dependendo do agenciamento do desejo, pode ser as duas coisas. O desejo é puro até o pondo em que se encontra em território subjetivo, daí em diante um devir pode dar em qualquer coisa.

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  5. Esta fora de contexto mas me faz pensar: Não entendo de onde vem a idéia de que morrer é algo ruim ou um castigo (pra quem morre)?Quem fica evidentemente sofre a ausencia...mas quem vai...quem é que voltou pra reclamar??Sofrer dor e doenças me parece ruim, ñ viver plenamente me parece péssimo...mas morrer de repente...ou dormindo ... me parece bom...

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  6. Morrer é bom/mal, só para quem permanece vivo...

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