Corpo
A verdade está no corpo. Esta declaração pode assustar os que acreditam nas idéias acima do corpo. Inventamos muitas crenças e valores sobre o corpo, mas na maioria das vezes, sem ter feito uma consulta prévia ao corpo, que é o único que sabe verdadeiramente o que é bom para si.
Em essência, é o corpo que inventa o direito natural. Quando no encontro com outro corpo, ele experimenta alegria, aumentando a sua potência de agir, tal encontro passa a ser de direito do corpo. Não é preciso que nenhuma autoridade científica ou religiosa declare este estado de coisa, o corpo sabe e pronto. Daí, o jovem Espinosa ter dito de forma maravilhosa, o que é bom para o corpo, é sabidamente aquilo que aumenta a sua potência de agir: bons afetos de alegria. Bons encontros. O que é mau para o corpo? Aquilo que o afeta com tristeza, o que diminui a sua potência. Não é uma idéia de bem ou mal no sentido moral, trata-se de um dado real, do que é bom ou ruim para o corpo. É uma fórmula simples, o que compõe um bom encontro com o corpo, afeta-o de maneira a aumentar a sua potência. Não se trata de aumento de massa corporal, mas aumento de potência.
Uma criança saudável serve como bom exemplo, o olhar, os gestos, a vitalidade das crianças é de pura potência. Acontece que o modo de vida, a escola, os temores da religião, a culpa e o castigo normalmente funcionam como maus encontros que, ao longo da vida, diminuem a potência.
Da infância à vida adulta, o indivíduo é afetado pela tristeza. Dizem que educar é frustrar, em um outro sentido, educar é entristecer, seria o mesmo que enfraquecer? É preciso dialogar com os “transgressores”, via de regra, eles estão protestando contra uma forma de tristeza que enfraquece. Pensem se seguirmos o caminho inverso. Se a educação, a família, a religião, o trabalho e a sociedade em geral estivessem a serviço dos bons encontros? De encontro bom e feliz em uma sucessão infinita, mesmo contando com as vicissitudes da vida, o homem seria muito forte, temível até. Mas estamos falando de potência de vida, capacidade para inventar modos de viver sempre que a vida se tornar intolerável. O corpo sabe o que aumenta a sua potência, ele também sabe o que diminui a sua vitalidade, por isso, deveríamos escutá-lo.
Interessante...mas será possível escutar o corpo, deixar de entristecer a criança (ou a nós mesmos) sem que, em alguma ocasião isso entristeça o outro? Ou devemos ser sujeitos de toda educação entristecedora e depois fazermos anos de terapia para aprendermos a nos permitir? É um tema que realmente me intriga...
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