Formigas



Por que não extinguimos as formigas? Por que elas sobrevivem a uma certa tecnologia que tem como objetivo a sua extinção? Por que sendo elas tão ”indefesas” e “frágeis” em relação a soberania do homem, ainda assim são a maioria? O império das formigas, que compreende incontáveis formigueiros, tem uma lógica de funcionamento muito semelhante a dos ratos. Formigas fazem rizoma, a organização do formigueiro se assemelha às partículas de quantas, só a física contemporânea pode explicar a resistência das formigas e sua lógica de coexistência com a natureza. São seres rizomáticos conforme Deleuze/Guattari se conectam a qualquer parte e em qualquer lugar. O ponto de partida também serve de chegada, o meio também é um começo. Um rizoma não é excludente, não há “terceiro excluído” no rizoma, ou seja, exclusões do tipo “isso ou aquilo” que se remete à lógica da raiz que é um sistema invariável e constante. 


O rizoma é inclusivo com base na conjunção “e”, “e”, “e”. As formigas inserem novas possibilidades sempre que uma força as atinge ou quando se agenciam à  grama que cortam, à água que as arrastam, até mesmo com o tamanduá que se banqueteia no formigueiro. Todas essas operações são bifurcações, deslizamentos, quedas bruscas, subidas, intensidades, variações sem fim. Uma formiga em seu andar errático, aparentemente bêbada, traça linhas de feromônios que indicam trajetos e devires, campos possíveis. Uma carreirinha de formigas pode mudar de rumo repentinamente, não sabemos as razões, nosso sistema sensório motor não permite que saibamos, percebemos muito pouco dessa realidade, um rizoma é quântico. Esses pequeninos animais se valem dessa lógica para desenvolver um sistema de fuga. Os cortes e as rupturas têm essa única finalidade: a vida,  elemento essencial de tal sistema. Elas estão fugindo da morte quando rizomatiza o ar, a água, a chuva, a terra e o sol. É a vida que escapa à sentença de morte.

Elas estão em qualquer lugar do mundo, em todos os compartimentos de uma casa, em todos os bosques, cidades e vilas. Como os nômades, nenhuma muralha de qualquer império impede a sua livre circulação. Elas entram e saem com a determinação do vento que não respeita fronteiras. São odiadas pelos agricultores, temidas pela bolsa de mercadorias, são o terror da produção agrícola. O mercado de pesticida inclui as formigas de toda espécie, a limpeza das casas inclue a exterminação desses pequeninos seres, mas elas estarão lá sempre. Umas caçam alimentos, outras carregam nas costas, outras organizam os depósitos, outras se encarregam da proliferação. Todas atacam, são uma frente de combate com estratégia de guerrilha, afrontam a força da civilização humana com seus caminhos subterrâneos, bifurcações infindáveis, uma mapa que se move em todas as direções. As formigas, diriam os filósofos, são um devir-minoritário que não leva em conta a quantidade estatística, o fato de serem milhares. 


O que conta é o fato de estarem numa longa linha de fuga, com quebradas em qualquer direção, ligações e desligamentos em função de uma fuga constante. A vontade das formigas é o que mantém a sua marcha. Que vontade é essa? A mesma dos ratos, elas querem expandir. Não seria o mesmo caso dos cupins e dos demais seres da natureza? É a vida em seu curso inesgotável. A vida quer crescer, diz Nietzsche, subir quer a vida. As formigas, para cumprirem esse imperativo, inventaram essa forma quântica, o rizoma, um estilo de organizarem a potência da Vida, uma política de resistência. Elas ligam um fluxo quântico ao outro, por lidarem com fluxos livres e contínuos, por isso as formigas são inextinguíveis.

Comentários

  1. entre açúcar e sonhos
    uma fileira ruidosa
    domesticamente organizada

    de onde para onde
    tal qual resposta em busca da pergunta

    entre o azulejo da cozinha e a massa fina
    esgueiram-se
    silenciosamente confusas

    as formigas
    (vb 2010)

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