Ego

Vamos pensar na duplicidade inerente a todo ser humano, ou seja, somos um ego e, ao mesmo tempo, outra coisa por trás dele. A questão se encontra bem colocada no drama bíblico, mais precisamente numa carta de São Paulo aos romanos. Ele diz, “aquilo que quero, não faço, mas o que me aborrece, isso faço”.
O ego é de uma formação mediada com um outro: o pai, a mãe, os professores e o meio social em geral. Tudo aquilo que nos força a viver no mundo, mas certamente não o é de maneira mais verdadeira, embora pareça ser a mais transparente. Ficaríamos apavorados se víssemos com clareza o quanto o ego é trapaceiro. A questão é que não podemos vê-lo, já que ele é parte de nós mesmos. Ele se encontra tão próximo de nossa personalidade que não podemos percebê-lo: tudo que é muito próximo não é passivo de ser percebido.

O ego se esconde onde menos se espera, nas virtudes morais, por exemplo. Pessoas demasiadamente humildes são demasiadamente vaidosas de sua humildade, mas elas não podem ver dessa forma. A necessidade de proteger o ego não tem fronteiras, como mostra Umberto Eco em O nome da rosa: as virtudes teologais, que levam os teólogos à caça ao anticristo, se tornam o próprio anticristo.
O ego mente, engana, rouba, mata, faz o que for preciso para manter sua fronteira livre de ameaças. As pessoas não sabem que estão presas a ele. Não sabem que há um ego. É muito difícil para a consciência aceitar que há algo além dela, algo que humilha e trapaceia. A contrafação do ego é uma consciência que desvela, mas abre feridas sobre as certezas. Uma criança, em seu primeiro dia na escola, recebe uma sentença de outra: “você é feia!” Ao que ela responde soluçando, “não sou, minha mãe diz que sou bonita”. A outra rebate com crueldade: “sua mãe é uma mentirosa, você é feia!”. A partir daí, instala-se um processo de adoecimento, a imunidade da criança diminui, ela não se sustenta mais na escola, pede a presença da mãe e chega em casa com febre e resfriando.

Na religião, o ego se manifesta como o demônio, motivo de desculpa para os erros e fracassos. O ego cria o demônio para que haja outro culpado. O fato é que, ao criar um inimigo externo, cria-se um inimigo de verdade. A percepção do inimigo externo é uma projeção do ego. É a noção de beleza, mediada pelos adultos, que faz com que o ego se cristalize na crença da beleza pessoal. A sentença: “você é feia”, quando chega ao ego, é rebatida com sentimentos de raiva e revolta. Na maioria das vezes, a insegurança provém dessa relação. Uma voz de dentro ou de fora, desfaz as certezas do ego, levando o indivíduo ao desespero desconcertante. Existe uma saída para o problema?

A saída sutil deveria ser a de tomar essas vozes contrárias às certezas narcísicas como vozes intercessoras de novas possibilidades. Pode ser um livro, um filme, uma peça de teatro, uma conversa entre amigos ou um encontro com a natureza. Não importa, com tanto que se produza uma diminuição do ego até ao limite de um mínimo de ego para se andar no mundo.

Comentários

  1. if you exist i exist ,this means ego is a part of our living, the only thing is you need to guide it to a right direction so that it becomes more useful .

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  2. You have this dangerously misleading and has the pure affections of nature in the body...

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  3. Esse tema é fantástico, gostaria de ouvi-lo mais à respeito. Numa visão leiga o ego parece ser o depósito das vaidades...mas quanto as suas armadilhas é atuar "demoníaco" não fazia idéia...intrigante! Gostei muito

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