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A REVERSÃO DA PSICANÁLISE

Principalmente após a publicação de O Anti-Édipo , no momento de ruptura com as categorias de Freud, Deleuze/Guattari projetam-se sobre a realidade social e política e constroem um novo ponto de vista: em verdade, um programa esquizoanalítico. Por intermédio de interrogações sobre a ligação entre as representações do inconsciente freudiano e os afectos , avaliam a significação que a (re)descoberta freudiana pode ter para a produção da realidade social. Tratou-se de analisar a pulsão de morte enquanto instinto de morte, não fazendo parte de um aparelho psíquico, mas como uma força que se encontra para além do aparelho que organiza as forças em princípio de prazer. Além disso, quanto ao Édipo da psicanálise, Deleuze o constitui como a “Metafísica” da psicanálise, enquanto o resultado do uso ilegítimo daquelas que seriam, segundo O Anti-Édipo , as três sínteses do inconsciente: a síntese conectiva de produção, a síntese disjuntiva de registro e a síntese conjuntiva de consumo. ...

MÁQUINAS DE GUERRA CONTRA APARELHOS DE CAPTURA

Uma máquina de guerra é dotada de velocidade para efetuar deslocamentos contínuos, como ocorre com os nômades, as sociedades sem Estado, os bandos, as matilhas dos lobos. Todas as imagens que eles compõem têm uma característica em comum que os arrastam para o excesso de vida. O fenômeno de minorias é o que dirige esses grupos. Por outro lado, o Estado tenta apropriar-se da máquina de guerra ao imitar os deslocamentos velozes dos bandos. O Estado tem a seu favor as organizações e as instituições “sagradas”, que fazem outra captura da máquina de guerra nômade de modo silencioso. O Estado não para de inventar papéis que o pai vai desempenhar na família. Uma sagrada família tem suas funções religiosas na igreja estatal. O Estado pode ser laico em certo sentido, quando os déspotas não são mais religiosos por educação. Mas a igreja tem muita força política nos Estados laicos da atualidade. A morte de Deus e a morte do pai não diminuem em nada as funções de autoridade de um e de ou...

Figura cristã no santuário II

Segundo São Pedro, com Cristo, “vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido”.[1] As correlações do cordeiro morto com Cristo, o cordeiro de Deus, são muito precisas e muito bem montadas. A passagem do santuário terrestre para o celestial resultou no projeto político mais bem-sucedido no Ocidente cristão. O cristianismo de São Paulo e de João é a dissidência judaica de maior repercussão na história. O cristianismo apropriou-se dos utensílios de culto nacional do judaísmo e elevou-os ao simbolismo máximo. O efeito restrito a um povo passou a valer para a humanidade inteira. O efeito apocalíptico fez do cristianismo um juízo universal. Não foi o Cristo da pequena aldeia de pescadores. O verdadeiro cristianismo que triunfou se encontra em São Paulo e no Apocalipse de João. Em João de Patmos, não é mais só o povo judeu que entra em juízo, mas também a humanidade, que se encontra permanentemente sob investigação judicial. Mas, ao mesmo tempo, os elei...

A introdução da figura cristã no santuário

Jesus, São Paulo e São João são, na visão de D. H. Lawrence em Deleuze, passagens necessárias para a constituição do sistema de juízo de Deus universal. Há o momento em que “foi necessário que a dívida fosse contraída com deuses”. [1] Por ser uma dívida com os deuses (esta), torna-se eterna e impagável. Não é com o judaísmo mosaico que se institui o sistema de juízo, mas, com os objetos do santuário judaico, o apóstolo Paulo constrói a teologia do sistema de juízo de Deus. Se Moisés é o inventor do judaísmo, São Paulo é o inventor do cristianismo e um daqueles que geraram as condições mais elementares para que o sistema de juízo alcançasse a força que tem até hoje. Ele foi o grande intérprete e formador do conceito cristão de má consciência. É ele quem interpreta a cruz – ou a morte de Jesus na cruz, o Crucificado – como um acontecimento que diz respeito ao mais íntimo de nossa existência, a ponto de, por intermédio desse acontecimento, introduzir em nós a dívida infinita. U...

O santuário é a máquina territorial portátil

Para São Paulo, os sacerdotes deveriam servir “de exemplo e sombra das coisas celestiais”. [1] Sobre a arca do concerto, encontrava-se o propiciatório com dois querubins, um à direita e o outro à esquerda, reverenciando as tábuas da lei. Uma mesa na qual se colocariam os pães da proposição, representação do pão da vida também celestial. O candelabro de sete velas, a luz do mundo. O véu de fina seda que separa o lugar santo do santíssimo, ao qual somente o sumo sacerdote poderia ter acesso. O rosto de Deus se escondia no santíssimo. “A rosticidade sofre uma profunda transformação. O Deus desvia seu rosto, que ninguém deve ver.” [2] Na parte externa do santuário, encontra-se o altar de sacrifícios. Josefo, seguindo a interpretação talmúdica, dirá que a “divisão do Tabernáculo em três partes era figura do mundo. A do meio era como o céu no qual Deus habita, e as outras, que estavam abertas apenas para os sacrificadores, representavam o mar e a terra”. [3] As roupas do sacerdo...

O juízo judaico-cristão: a dívida eterna

No judaísmo, há um sistema de juízo, mas de alcance nacional. Ainda não é esse o juízo que julga o mundo; será preciso haver uma grande torção teológica para que um sistema de juízo alcance a universalidade. Antes, porém, é necessário que o Eu individual ceda lugar ao grande eu coletivo. Com Moisés no deserto, o sistema de juízo tem uma proporção local e regional, o juízo é para as 12 tribos de Israel, não tem a pretensão de julgar o mundo. Ainda não existe uma visão de mundo suficientemente abarcante que pudesse justificá-lo como conjunto de inimigos do povo escolhido. Trata-se de um bando de escravos que precisa ser domesticado para se submeter. Em Moisés, a dívida é para com o Deus monoteísta, mas tudo se resolve com fluxos de sacrifícios diários (touros, vacas, cabritos, bodes, ovelhas, aves e farinhas), fluxos de sangue de animais sacrificados, a fim de resolver a culpa pelos pecados diversos. Mesmo que os sacrifícios sejam de uma ordem contínua, os penitentes se sentem li...

O livro do juízo IV

Desse modo, a reunião dos três estratos não traz novidade do ponto de vista de uma política minoritária (não é o sentido de minoria da micropolítica), o povo eleito pode ser de uma minoria remanescente, mas que não entra em devir minoritária. O judaísmo de Moisés, o cristianismo de São Paulo e o Apocalipse de João sofrem da mesma paranoia. Todos desejam a mesma coisa: a formação de uma massa coletiva, ou seja, é a alma coletiva em torno de um centro despótico. Eles demonstraram que a formação de um povo está sempre determinada por um sistema de juízo. “João de Patmos, o operário, o mineiro, que reivindica a alma coletiva e quer tomar tudo.” É com João que o sistema se desloca do povo restrito para o mundo de proporções cósmicas. Os anjos caídos também serão julgados e punidos eternamente. Não se trataria nem mesmo de uma ética, mas de uma moral universal que não exclui nem os anjos: “São Paulo, para arrematar, é uma espécie de aristocrata indo em direção ao povo, uma espécie de Lên...