O Tempo II
Segunda Síntese: Ativa
Obs. a compreensão do texto depende da parte I
Gilles Deleuze denuncia a morte do senhor das sínteses (Deus) como consequência da rachadura do "Eu" pensante no cogito cartesiano. A forma pura do tempo racha o "Eu", mas é dessa "violência" que surge o pensamento. O pensamento não é um ato espontâneo do "Eu pensante", mas uma violência que o tempo vivo impõe sobre a estrutura mental que circula no cérebro, dependente dele para se tornar processos. Kant introduz o tempo puro no pensamento, considerando que o pensamento é a extensão consciente do corpo, ou seja, a representação que o corpo faz de si mesmo. Ainda não existe uma estrutura simbólica da representação; não há representante e representado. A linguagem ainda não foi introduzida.
Mesmo na segunda síntese, que é ativa e o momento das ideias, o pensamento é movente porque se apoia em partículas infinitesimais de um tempo puro que nem mesmo se deixa segmentar na consciência. Freud introduz o conceito de instinto de morte naquilo que a filosofia pensa como a forma pura do tempo, demolição de tudo. É preciso criar o hábito para que nele a segunda síntese se efetue. Não é mais a simples contemplação, mas a espera de uma repetição ampliada com informações agrupadas, marcações do antes e do depois, reflexões e julgamentos.
Nesse ponto, já existem operações sofisticadas, representantes e representados. Conforme Espinosa, as noções representadas de "para cima" e "para baixo" correspondem ao estado da consciência: alegria associada a "para cima" e tristeza à direção inversa. A imagem do tempo como uma reta infinita dá à intuição do tempo sua forma adulta, proporcionando ao sujeito a imagem do horizonte global, onde se confronta com a prova derradeira: o pensamento da morte. Mas a linha reta do tempo é apenas uma representação.
A consciência é também a consciência do tempo que escoa para o fim do sujeito. A mente atualiza tudo na operação temporal, onde, simultaneamente, o virtual desfaz tudo e obriga o sujeito a reatualizar. O eterno retorno. É a "dança" entre virtual e atual que realiza um movimento no tempo sob a direção de uma flecha temporal que vai do virtual ao temporal. Nesse ponto, o sujeito não é mais passivo; ele é compelido a pensar.
Operações cerebrais complexas são requeridas, e o sujeito é forçado a pensar. Estamos na segunda síntese, a fase do fundamento circular do tempo, síntese de um passado puro que faz com que todo o presente passe; o presente aqui é apenas atualização do tempo. O tempo nessa fase é circular porque o desmoronamento das formas impõe atualizações. O virtual põe tudo em fuga, e o sujeito reúne os pedaços para atualizar. A sensibilidade vital primária já se encontra aqui; o presente vivido já constitui no tempo um passado e um futuro. Este futuro aparece na necessidade como forma orgânica da expectativa; o passado da retenção aparece na hereditariedade celular. Já estamos na ordem do princípio de prazer. Uma expectativa espera a repetição da experiência da satisfação anterior. O cérebro se fundiu em processos mentais.
Terceira Síntese: Repetição sem Identificações Ideais
Por fim, a terceira síntese arrasta tudo para uma espécie de repetição sem identificações ideais. O "aparelho psíquico" freudiano enfrenta o que é incriado ou o que está sempre já-aí, síntese de todo o tempo, cujo presente e futuro são apenas dimensões; é o passado que se constitui em memória, base estrutural de retorno que recolhe todo o tempo. Ele persiste e insiste como memória de onde o processo criador tira sua base.
Nesse lugar atópico, encontra-se o jogo de forças ética, estética e política, onde natureza e sociedade se acham em luta. Por isso dizemos: homem e natureza fazem parte de um mesmo ecossistema.
Essa análise detalhada das sínteses temporais reflete uma profunda interconexão entre filosofia, psicanálise, e neurociência, ilustrando a complexidade da relação entre tempo, mente e corpo. A contemplação dessas sínteses nos leva a compreender melhor como o tempo não é apenas uma sequência linear, mas uma estrutura multifacetada que molda nossa existência e consciência.
Referências
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