O BANQUETE
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O homem é frequentemente descrito como naturalmente religioso: busca o que vem do Alto, tem sede de Deus. Convencionou-se, nessa chave, identificar o psiquismo com essa inclinação. Vale lembrar, porém, que essa concepção é histórica; sua forma clássica nasce com os gregos.
Para Platão, tal impulso não é um problema, mas um propulsor que eleva o homem à esfera inteligível, onde se contemplam as Ideias. Longe de inibir, isso estimula o filosofar: é pela filosofia que o pensador pode aspirar a uma estabilidade, inteireza, justeza e perenidade que a condição mortal lhe nega. A divisão do mundo, operada por Platão, instaura uma diferença de natureza entre dois planos.
De um lado, há o plano divino das Ideias: o mundo ideal acima das estrelas, o reino das essências ou formas puramente inteligíveis, lugar dos modelos superiores. Trata-se de uma realidade verdadeira, que existe em si e permanece imutável, idêntica a si mesma, apreensível apenas pelo pensamento.
De outro, está o plano dos corpos sensíveis: o mundo terreno das aparências, da matéria, das imagens refletidas nos corpos sublunares. É o domínio dos fluxos, das mudanças e dos devires, sempre outros do que são — região inferior, apreendida pela experiência sensível, que, no melhor dos casos, alcança uma realidade segunda, isto é, torna-se cópia, se e quando se deixa ordenar e medir pela semelhança ao mundo modelar das alturas.
Esse dispositivo platônico se constitui como crítica às concepções pré-socráticas do desejo, produzindo uma verdadeira reviravolta no modo de pensar o desejo, o amor e o amante. O amante já não terá por objeto os belos corpos enquanto tais, mas as formas inteligíveis das quais os corpos sensíveis são apenas reflexos.
Giovanni Reale sintetiza a tese platônica nestes termos: “Platão apelou para a razão na luta contra o eros, mas isso não lhe foi suficiente para alcançar a virtude. Indo além do racionalismo socrático, ele devia refugiar-se na mística e tentar nela a própria salvação”. Daí o escalonamento da experiência amorosa com tonalidade quase sacral.
Segundo esse itinerário, “o homem deve passar: 1) do amor pela beleza dos corpos, 2) ao amor pela beleza da alma, 3) à beleza das atividades humanas e, finalmente, 4) à beleza do conhecimento — corpo, alma, saúde e o conceito de conhecimento — até alcançar 5) a contemplação e a fruição do Bem em si”. O percurso desloca o foco do singular (corpos particulares) ao universal (a Forma), culminando na contemplação do Bem/Beleza em si.
Com isso, as singularidades da beleza e dos corpos cedem lugar a uma forma universal de beleza, a uma ideia de corpo belo e a um único modo legítimo de desejar. O desejo torna-se, assim, objeto de consideração teológica, algo que mais tarde se refletirá nas práticas confessionais de padres e pastores.
Hoje, as confissões são menos frequentes e, gradativamente, foram sendo substituídas por terapias. Estas se propõem à “cura da alma”: ora a do “louco”, definido como doente mental; ora a da alma edipiana, cujo desejo inconsciente é interpretado como incestuoso e parricida — portanto, culpado. Deslocam-se os dispositivos de exame e correção do desejo: do confessionário ao consultório, preserva-se a ambição de decifrar, medir e endireitar a vida desejante, ainda que mudem as linguagens, os métodos e as legitimações.
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