Segmentarização
"Somos
animais segmentarizados". Existimos no tempo e no espaço segmentarizados. Tempo
determinado e espaços definidos. Como já ficou dito, da casa à escola, da
fábrica à caserna e aos outros espaços sociais, tudo demarcado por segmentarizações
duras, inflexíveis. A loucura e a transgressão seriam o mesmo que romper com essas linhas
duras e fugir para o espaço liso do artista da vida, sair com ele para as
montanhas num encontro cósmico com estrelas.
As
demarcações já se encontram prontas quando nascemos. São como trilhos de trens
por onde devemos seguir sem protesto. “Não saída da linha!”.
Essa
forma espacial de segmentaridade é mais visível do que as consequências que
ficam na alma. É o que faz pensar que as coisas pareçam normais e não podem ser
de outra maneira: “você é isso e não pode ser outra coisa”, uma palavra de
ordem que põe os indivíduos no devido
lugar.
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“Mas por que não?”. Perguntam as crianças na escola. A escola decreta a morte
dos enunciados das crianças. A curiosidade das crianças termina na escola
quando é nela que a intuição curiosa deveria expandir. Mas é na escola que os impulsos vitais das crianças são
rebatidos em nome de uma avaliação cidadã.
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“Porque as coisas são assim mesmo...”. Respondem os professores.
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“Não existe outra forma de ser... Rebatem
os pais em tom de ameaça com o dedo no rosto da criança. Desde que o mundo é mundo as coisas são assim”.
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“Foi Deus que fez assim”. Afirmam os sacerdotes de toda espécie. São modos “corretos”
de pensar e de agir. É tempo de casar, de ter os filhos e tudo recomeça na vida
dos descendentes.
Os hábitos são a segmentarização do tempo. Hora
de levantar, hora de trabalhar, hora de fazer amor, forma de amar, etc. Os
hábitos fazem o espaço-tempo parecer naturalmente corretos, mas não é. Na
verdade é o paraíso artificial do Show de
Truman ou de Matrix.
Como
nas batidas do relógio, a mente está condicionada a agir dentro de parâmetros previamente
determinados, esperamos sempre a próxima badalada do sino da igreja.
Vivemos
como se o tempo fluísse na medida em que, os gonzos do portal do tempo, abrissem
e fechassem sob o controle de Cronos.
Um
ano que termina e outro que começa. O carnaval, a páscoa, dia de finados, dia
dos pais, dia dos namorados, semana santa, natal e ano novo.
Cada
data tem suas formas de reverenciar, de comer, beber e dar presentes. O homem é
esse animal que, ao nascer, sem perceber entra numa caverna platônica e lá
permanece sofrendo e sorrindo acreditando ser essa a única possibilidade.
Dentro
desse universo de ordem se incluiem as modas, o culto ao corpo, os modelos de
beleza, a lipoaspiração, os silicones, os aumentos de peito ou de bunda, os
modelos de virtude e do agir correto. Todos querem ser desejados, caso não seja, entra-se em crise existencial.
Nem
se percebe o trágico cômico de tudo isso. Como diz Dráuzio Varela, um dia os
homens terão pênis ereto e as mulheres, belas bundas e peitos durinhos, mas por
causa do Alzheimer, eles não saberão para que serve nem uma coisa nem outra.
Tudo
parece muito justo, a propriedade privada, o consumismo, a exploração da
natureza e a do homem. Um dia, quem sabe, numa forma de esquizofrenia ativa, o
homem descubra a caverna que habita. E o tempo saia dos seus gonzos abrindo os
portais do tempo às infinitas possibilidades de vida.
E também se perceba que os mapas mais potentes são aqueles que
os indivíduos solitários desenham para as suas próprias vidas, ainda que entre as linhas duras já existentes, mesmo que se valendo delas.
Um texto que precisa ser divulgado. Várias reflexões que considero importantes para a vida. Não sabemos lidar com o tempo. Como ir para as montanhas num encontro cósmico com estrelas? Adorei.
ResponderExcluirBom saber que têm pessoas inteligentes lendo por aqui.
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