Sinceridade
Supõe-se
que a etimologia da palavra sinceridade se remete ao ato do escultor que
costuma usar cera para disfarçar pequenas fissuras em sua obra em pedra de mármore.
Nesse
caso, tratar-se-ia de uma obra com cera. O ato de sinceridade seria desse modo,
um gesto sem-cera. Uma obra de arte
sem cera é a obra perfeita.
No
belo livro de ficção que gerou o longo filme, Tempestade do século, Stephen king mostra o quão impossível seria a
vida de uma cidade, caso os segredos dos moradores fossem revelados à luz do
dia.
Parece
ser impossível conviver com pessoas incondicionalmente sinceras. Quando
perguntamos a alguém se está tudo bem, de fato não queremos saber como estão de
fato as coisas.
É
um hábito esperar a simples resposta:
-sim, está tudo bem.
Imaginem que ao entrar no elevador do condomínio,
ao perguntar “como vai”, a síndica de seu prédio comece a contar dos problemas
do condomínio? Se os vizinhos todos forem sinceros e responderem tudo que estão
passando na vida? Será que haveriam ouvidos para escutar? Por isso inventou-se a profissão remunerada para escutar as lamúrias e problemas das pessoas.
Por outro lado, se as pessoas falassem
sinceramente sobre o que pensam, umas das outras, poderíamos nos surpreender com
o aumento de conflitos no trabalho, na família e na sociedade em geral. Nas
igrejas o “amor ao próximo” ficaria impossível. Só se "ama" o próximo com cera.
É
preciso muita intimidade para que uma mulher possa dizer a outra:
-
“Você está realmente ficando velha, olha como seus peitos estão caídos!”. Esse
tipo de coisa não se diz, mesmo quando é um fato verificável. É sincero demais.
No
ambiente de trabalho, lugar onde somos “obrigados” a com-viver, nem pensar em ser tão sinceros assim.
Corremos
sérios riscos de pagar pela sinceridade, a vida de muitas pessoas se transforma
rapidamente num inferno por dizer “umas verdades” para o chefe.
A
Little Tall de Stephen King viveria
bem as suas tempestades naturais, mas nunca se preparou para a maior de todas. A
visita inesperada do anômalo, um outsider
que tudo sabe sobre os moradores, é a maior ameaça.
A
vida pacata da ilha tinha seus segredos, a pedofilia do pastor da única igreja,
os furtos de outros, os adultérios
e o tráfico de drogas de pessoas consideradas honradas faziam parte desses
segredos.
A
sinceridade extrema do estranho
mostrou que a vida só seria possível quando esses segredos permanecessem sendo segredos.
E
que as consequências dos erros das pessoas, é o modo como elas mesmas
acertariam as suas contas nessa vida.
Ou
seja, os homens devem criar os modos de viverem sem a intervenção de um ser
transcendente.
Ser
ou não ser sincero, ser ou não ser honesto é algo que cabe aos homens de uma
sociedade. Não pode haver um ser de outro mundo que puna as pessoas por prevaricarem.
Nesse
caso, os indivíduos estariam condenados à infantilização eterna.
Já paguei caro pela sinceridade mas, não posso reclamar pois, .... por pior e doloroso como foi, ainda NÃO ME ARREPENDO - Senti-me realmente mt bem por expôr a quem de direito, o que tanto me incomodava !!!! ( Alaene Almeida ).
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