A cidade
Toda
cidade deveria ter a sua arqueologia física e uma arqueologia do pensamento.
Seria necessário mais do que fazer a história da cidade. Deveria existir também
uma etnografia, uma física das intensidades que subjaz ali.
Há
uma ilusão da razão iluminista que persiste em fazer acreditar que as cidades
são apenas o que elas demonstram com suas praças, seus edifícios e seus
moradores vivos.
Há
um imenso passado sempre vivo no presente das cidades. Um mundo intangível que
jamais poderá ser percebido por uma mente racional. São muitas cidades
sobrepostas umas às outras.
Olhem
a igreja da cidade! A matriz e as outras dos bairros. Nunca se pensa na política
de urbanização que definiu o lugar da igreja. Elas se encontram sempre no
centro e nos lugares mais altos. Isso é grego! Isso é hebreu! Os deuses sempre
habitam nos montes mais elevados.
As
cidades dos séculos (XVII – XIX) eram definidas a partir da igreja. O
pensamento da época, centrado na crença religiosa começava a organização da cidade
a partir da catedral. A catedral como centro e depois o resto por ordem de
valor. Determinação paranoica que se estendeu ao universo. O homem como centro,
a Terra como o centro. O homem sempre teve essa obsessão pelo centro. Um narcisismo
primário. Mataram Copérnico por descentrar a Terra e o homem. Morte inútil. A
Terra sempre foi descentrada. O mundo é descentrado. Não existe o pivô do
mundo. Nunca houve gonzos nas portas do universo. Quantas mortes desnecessárias
nas cidades!
É
preciso entrar numa catedral sem ter pressa. Tomar um lugar em silêncio e
sentir a história que ali permanece.
As
igrejas de uma cidade têm cada uma as suas histórias. Elas ocultam muitos
pecados de seus fiéis e de seus padres também. Quantas confissões permanecem em
aberto, umas confessadas, outras não, umas pela metade outras de meias verdades.
As
ruas da cidade, um dia pequenas ruelas, caminhos de areia branca margeados de
capim verde, muitas vezes tendo ao lado um riacho de águas cristalinas, hoje são
avenidas tumultuadas.
Quantas
vidas já não passaram por essas ruas outrora trilhas de fazenda? Se fossemos
juntar as almas, se elas persistissem em permanecer nas ruas, quantas almas,
quantas histórias de vidas nas ruas da cidade!
O
rio de águas transparentes onde as crianças brincavam, hoje não passa de esgoto
dos restos escusos de seus moradores. A natureza une o orgulho e vaidade dos
moradores de uma cidade naquilo que eles menos querem ver. No esgoto se
misturam os detritos dos presunçosos, dos prepotentes, dos humildes, dos
crentes e dos ateus. São tão semelhantes que não se pode discernir uns dos
outros. Não existe figura mais democrática do que a de um esgoto de merda.
Olhando para o esgoto pergunte pelo poder. Onde ele está?
Hoje
na cidade, onde existe um sofisticado café, quem sabe um dia, existiu um velho armazém
onde se comprava e anotava em caderninhos surrados as dívidas dos clientes.
Umas pagas fielmente, outras nem tanto, ali se encontram esquecidas no espaço
do tempo.
A
cidade sempre teve sua pequena burguesia, seus comerciantes, suas associações
de defesa de seus direitos.
É
impossível que não tenha ratos na cidade, das duas espécies, os do subsolo que
aparecem furtivamente, e os outros que andam sob a luz do meio dia.
Depois
de muito tempo, as cidades se descentram. Paris já não é definida pela Catedral
de Notre-Dame. A Catedral deixou de ser um símbolo de religiosidade de distribuição
de papéis que diziam do certo e do errado, do bem e do mal.
Notre-Dame
hoje é uma obra de arte como a Torre Eiffel. Paris está descentrada pelos
centros de cultura, pelos cafés, restaurantes e pela produção de conhecimento
da grandiosidade da Sorbonne.
Os
movimentos do pensamento des-louca continuamente a crença da unidade da cidade.
Já não é mais a crença que determina a organização espacial da cidade. Um gênio
ateu como Niemeyer toma o fluxo das curvas da natureza e faz uma cidade de
acordo com as linhas cósmicas do mundo que o cerca. Mesmo quando ele rabisca
uma igreja, são as curvas sensuais do mundo que determina a sua catedral.
Há
muito que dizer sobre uma única viela de uma cidade. Mesmo que seja uma única
esquina. Cada ponto é um encontro de fluxos impossível de ser descrito num
espaço tão pequeno.
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