Franz Kafka
...
O que ele viu? O que ele descreveu? No Castelo?
No
Processo? Em Carta
ao pai? Ou em Metamorfose?
-
Ele viu a burocracia da máquina estatal e a descreveu com deboche. Ele viu as injustiças
da justiça. As intermináveis entradas e saídas, as infinitas portas do judiciário
que se fecham numa concha escura. Um labirinto trancafiado em axiomas judiciais
onde só os magistrados têm a interpretação. Uma fantástica máquina abstrata!
As
portas do judiciário têm ligações com interioridades muito secretas, com as
repartições públicas, com a igreja ou com segredos sujos impossíveis de serem desvendados.
Em
O Castelo, assim como no Processo, nunca se chega ou se é
demasiadamente frágil quando se chega.
É
o método do poder: enfraquecer e entristecer para depois dominar.
Kafka
faz um deboche dessas máquinas burocráticas para dizer que tudo isso é risível,
esse é o seu método.
Em
Carta ao pai, é a autoridade em questão. Do micro território familiar ao macro
território das instituições sociais, é da mesma autoridade que está falando. A
autoridade e o poder se distribuem da família aos espaços abertos da sociedade:
o pai, o professor, o padre/pastor/rabino, a polícia, o juiz e os governos
compõem a autoridade da Lei do pai ampliada.
É
a mesma autoridade que, no mapa mundi,
se amplia até o espaço cósmico em forma de Deus-Pai. Kafka é antes de tudo um psicólogo
da sociedade, ou um analista de grupo.
Ele
é uma máquina de guerra literária que faz combate sem derramamento de sangue.
Um modo ético de fazer uma guerra contra o poder e contra a burocracia do
Estado.
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