Sexualidade


Entramos no mundo acreditando na sexualidade distribuída pelo complexo familiar, uns nascem homem e outros (as) mulher. Algo muito próximo da linguagem dos computadores, isso ou aquilo.

Ou você é isso ou é aquilo, se não for identificado por essa fórmula antiga será tomado por anômalo. Essa questão é edipiana, mas Édipo antecede à psicanálise. Freud apenas partiu do fato existente sem contrariar o estabelecido da lei.

Muito mais do que familiar Édipo é autoridade politica, uma paranoia do poder. É preciso vigiar os nascimentos, olhar entre as pernas para ter a ilusão da certeza de que o individuo seja homem ou mulher. Pobres pais cristãos, testemunhas da fraude dos órgãos genitais. Eles vão chorando e sofrendo buscar tratamento para filhos (as) que não se reconhecem nisso ou naquilo. Na verdade, à revelia do sonho puritano da moral cristã somos isso “e”, “e”, “e”... “e”.

Enfim, a sexualidade não é binária. Desde sempre o sexual é uma multiplicidade no masculino e no feminino. Existem gradações intensivas de uma sexualidade, mais ou menos feminina na mulher e outras tantas intensidades de sexualidade masculina na mulher e o mesmo se dá em relação ao homem. A natureza ignora o zelo moral dos políticos cristãos. Esses paranoicos do poder, se lhes fosse possível, trariam de volta as fogueiras.

A síntese da natureza independe da transcendência de um ente divino. Fazer homem e mulher não exclui o feminino no homem e o masculino na mulher. Ilusão infantil acreditar nas determinações da cultura. Somos síntese inclusiva que é no mesmo espaço-tempo órfã e ateia.

O ato divino de destruir Sodoma e Gomorra é a paranoia despótica de Édipo travestido de Deus. Como poderia um Deus de amor fazer destruição em massa? Ele é o primeiro que abomina a diferença? É que para o homem embriagado de poder, deus existindo tudo é permitido. O Estado contemporâneo seria mais moderno do que o Deus hebreu? É o homem que não suporta a entrada de uma síntese excluída. Se você não é isso ou aquilo será julgado, torturado, morto a pauladas e finalmente queimado. Suas carnes serão jogadas ao sol e consumidas pelas aves de rapina.

A questão é filosófica antes de ser teológica. A teologia já nasce sobre o solo filosófico. É a quadrupla raiz da representação que deixa de fora o elemento estranho. Diz uma das regras elementares da raiz do pensamento: “A” é igual a “A” e “A” não poder “A” e não “A” ao mesmo tempo.

Dessa forma não haveria o elemento surpresa, o sujeito anômalo estaria excluído ou é ele mesmo o outsider, o estranho, o diabólico, o terrível inimigo agachado por baixo da ordem do mundo.

Foi preciso que esse anômalo saltasse para fora da ordem. Trata-se da síntese conjuntiva. Um processo que produz um sujeito sem identidade. A identidade binária é a posteriori, não é da ordem da natureza, mas da cultura.

Não nascemos heterossexuais nem homossexuais, somos apenas sexuais, uma multiplicidade que se inclui tanto no masculino quanto no feminino. O feminino no homem faz síntese, ora no masculino da mulher, ora no feminino dela e numa cadeia rizomática indo até os confins do mundo.

 

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