Café...


Era manhã de um dia qualquer em 1964, fazia frio quando atravessei a praça envolta em névoa fria. Tinha terminado de ler o pequeno romance de Hermam Melville, Bartleby – o escriturário.

Não me saia do  pensamento a fórmula de Bartleby, I prefer not to do!

Eu prefiro não fazer, foi naquele caso, o passo decisivo para a revolução de uma vida inteira de rotina miserável.

A mudança de uma ‘vidinha de merda’ numa única fórmula: I prefer not to do! Enquanto me dirigia para o único café decente da cidade, a fórmula de Bartleby não largava de meu pé.

Pensava em milhares de vidas que poderiam mudar. Quantos relacionamentos tristes! Quantas vidas subjugadas! Quantos indivíduos infelizes, frustrados num trabalhinho medíocre! Quantos amores não vividos, quantas decisões não tomadas!

Pensei no epitáfio do túmulo de milhares que numa pedra fria de mármore poderia está dizendo: “aqui jaz fulano (a) que quase conseguiu...”. Coisas que envolveria uma frase do tipo “fórmula de Bartleby”, eu prefiro não fazer mais...

Já no Café, um aroma delicioso se espalhava pelo pequeno salão que se conservava aquecido pela vidraça esverdeada. Do lado de fora um sol tímido insistia em aparecer entre nuvens de inverno. Desenhos de garças esculpidas nos vidros davam um belo tom bucólico ao lugar.

Na parede, um belo pensamento de Emmanuel Kant, quem diria, “a amizade é como café, uma vez frio nunca volta o sabor original, mesmo aquecido”. A palavra “original” está destacada em vermelho.

Pedi o meu cappuccino sem creme enquanto louis Armstrong cantava, what a wonderful world.  

Comentários

  1. O texto foi escrito em forma de ficção. Mas o ambiente trata-se do Grão Café em Nova Friburgo. Lugar onde costumo estar só ou acompanhado para tomar o delicioso café do lugar.

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  2. Muito prazer!
    Somos idênticos em percepção!
    Em querer modificações! Em questionamentos! Em versões idênticas de solidão, mesmo qdo há alguém que finge estar em sua companhia... Salve! Grata por vc existir! Mel

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