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Crenças

Acreditar é preciso! Não estamos propensos a acreditar que existam deuses guiando a nossa vida. Mas o fato de estamos lançados na imensidão do universo é que nos impõe a crença em alguma coisa que pode estar lá fora cuidando de nossas vidas. Não há nada de genético nisso, trata-se de uma experiência que nos proporciona um aprendizado ao longo da vida. Nesse caso sim, esse aprendizado pode ser transmitido geneticamente. Nisso não há nada de especial, os hábitos também são transmitidos geneticamente. Nascemos ateus, e cresceríamos ateus se soubéssemos conviver com o desamparo, a solidão e a finitude de nossas vidas. Se a crença num deus fosse proveniente da natureza, os crentes não precisariam de tantos ritos para manter a sombra da ideia da existência de um deus. É preciso muitas rezas e orações, muitas renúncias, cultos de manhã, de tarde e à noite. Idas diárias, semanais e ao longo do ano e da vida, para que a memória da existência de um ser soberano não evapore da consciência. S...

Além do bem e do mal

É difícil pensar no fato de ser impossível ao homem ter conhecimento do bem e do mal, devido ao simples fato de essas noções não serem acessíveis à consciência sem que passem por esferas subjetivas de valores do indivíduo. Logo, conceitos de bem e mal divergem de indivíduo para indivíduo. E não apenas isso, mas os seus correspondentes, Deus e o Diabo, também. O indivíduo vai chamar ao que lhe agrada de bom; e de mau ao que lhe causa dor, tristeza ou desconforto. Como cada indivíduo difere em constituição psíquica, também se difere na percepção e distinção do que seja bem e mal. Além disso, esse indivíduo deverá atribuir o que lhe faz bem ao bem supremo de um bondoso Deus. E o que lhe faz mal, ao mal supremo de um ente perverso, o Diabo. Dessa forma, é quase impossível que haja um mal puro ou um bem igualmente puro. O que dá prazer aos indivíduos ganha rótulos de bem e de bom. Mas tudo não passa de uma moralidade egocêntrica, já que os motivos de tal julgamento são o bem-estar i...

Linguagem

Pensar a linguagem através da linguagem já constitui um imenso desafio. Nos acostumamos a pensar com palavras, sem nem mesmo exercitarmos uma pequena desconfiança acerca desse procedimento que se tornou senso comum e bom-senso. Daí, dessa convenção, deriva toda a nossa crença na verdade, seja religiosa ou de outra forma de conhecimento. Acreditamos no verdadeiro sem nem questionarmos se tudo não passa de um arranjo de palavras, devidamente arrumadas, para nos dar a aparência do verdadeiro. Mas as palavras que compõem a linguagem não passam de uma redução arbitrária do todo que elas pretendem reduzir. Sentimos sensações nunca ditas, isso porque as palavras só podem representar um mínimo do que sentimos. A imensa maioria de nossas sensações puras se perdem sem serem representadas na linguagem. Grande parte do mundo passa diante de nossos olhos e sentidos sem que possamos captá-la. Isso porque somos prisioneiros da linguagem. Nos afastamos demais de nossa "casa", ou, dizendo de ...

Crenças e valores

Um homem estava deitado em seu leito de paralisia por mais de três décadas. Esperava que um dia alguém lhe lançasse no tanque de águas sagradas no momento exato em que um suposto anjo revolvesse as águas. Mas ninguém se interessou pelo seu caso, até que um dia o mestre se aproximou e lhe perguntou: "O que queres que eu faça?”Ele lhe respondeu: "Que eu ande Senhor". Disse-lhe, "Levanta, pega a tua cama e anda". Assim ele o fez. Pegou os seus trapos da cama e saiu regozijando-se por perceber que andava. Mais adiante, os fariseus, guardiões da tradição religiosa, se inquietaram com o fato de o homem estar andando. No entanto, não era o fato de ele ter estado mais de trinta anos paralisado numa cama, mas pela razão de o homem estar carregando uma cama no dia de sábado. Não houve nenhuma manifestação de alegria por estar andando, mas uma reação moral ao fato de estar "transgredindo" uma regra moral. A tradição quando supera os valores da vida, op...

Saídas

Entramos no mundo chorando e sorrindo sem saber por quê. Partimos de uma imaginação vinda do Outro, que nos diz sermos o que somos: nome, crenças, valores, normas e atitudes são provenientes do Outro, que funciona em nós como um espelho. Mas o fato crucial e trágico é que não temos como saber que somos o desejo do Outro, e, no entanto, somos de fato determinados por esse Outro no qual (ou “contra o qual”?) nos debatemos. Acreditamos por falta de uma linguagem que nos possibilitaria discordar. Esse fato, o modo como entramos no mundo, marca uma primeira atitude política em nossa vida. Um dia teremos que nos revoltar, nos insurgir contra o que nos tornamos sem saber o que ou como. Essa primeira insurreição, necessária, marca os processos de singularização. Um indivíduo - ou um povo, uma sociedade - precisa se insurgir, propondo, de início, uma questão, sendo ela: o que estou permitindo que façam comigo? Daí, se precipita um processo que não tem previsão de acabar. Para que a vida seja é...

Realidade

A trilogia Matrix mostra a realidade de Matrix e o deserto do Real. É   uma ficção que toma como pano de fundo o belo texto Simulacro e simulação de Jean Baudrillard . O filme coloca em questão a realidade e a ilusão. Depois de assistirmos ao filme, saímos pensando que a vida humana pode ser uma ilusão e que haveria alguém manipulando dados. Inspirado em Lacan, Zizek fala de três realidades ou de três níveis do Real. Para ele, existe o Real imaginário que marca a nossa entrada no mundo e que permanece de alguma forma por toda a nossa vida.   Entramos no mundo sofrendo e sorrindo, imaginando o “eu te amo” da mamãe, quando ainda não dispomos dos significados do amor e temos de responder com imaginações. O que ela quer dizer com o “eu te amo?”. Não que o imaginário seja algo único da infância, os adultos também imaginam. A fantasia é pura imaginação. O imaginário é uma realidade imaginária. O segundo Real já faz parte do simbólico. O que é o simbólico? É quase tudo que construí...

“Se Deus não existe...”

...Nada é permitido?   Trata-se da fórmula   dos “ Irmãos Karamazov", de Dostoiévski, que reza “se deus não existe e a alma é imortal, nada é pemitido”. A razão pura pratica não leva em conta o que prevalece no sujeito, o desejo de atingir o pleno gozo, mesmo sendo esse gozo impossível. A história mostra exatamente o reverso da máxima. Se Deus existe tudo é possível em nome dEle. Basta olhar a Idade Média, as cruzadas, as fogueiras, os enforcamentos, a caça às bruxas. Que tal ler de novo o Maleus (Martelo)? Outra sugestão, ler Vigiar e punir de Foucault, o suplício de Demien. Rever o passado do Antigo Testamento, todos os assassinatos de Moisés, verdadeiro etnocídio. Ninguém podia sobreviver, nem os primogênitos. Muito sangue! Um Deus ciumento que exigia limpeza étnica. A Bíblia está cheia de relatos de estupros, genocídios, homicidios, assassinatos bárbaros, crueldade, machismo, homofobia, e sanguinolência dos homens religiosos em número aproximado de 2.270.375 mortes (Wik...