Realidade
A trilogia Matrix mostra a realidade de Matrix e o deserto do Real. É uma ficção que toma como pano de fundo o belo texto Simulacro e simulação de Jean Baudrillard. O filme coloca em questão a realidade e a ilusão. Depois de assistirmos ao filme, saímos pensando que a vida humana pode ser uma ilusão e que haveria alguém manipulando dados.
Inspirado em Lacan, Zizek fala de três realidades ou de três níveis do Real. Para ele, existe o Real imaginário que marca a nossa entrada no mundo e que permanece de alguma forma por toda a nossa vida. Entramos no mundo sofrendo e sorrindo, imaginando o “eu te amo” da mamãe, quando ainda não dispomos dos significados do amor e temos de responder com imaginações. O que ela quer dizer com o “eu te amo?”. Não que o imaginário seja algo único da infância, os adultos também imaginam. A fantasia é pura imaginação. O imaginário é uma realidade imaginária.
O segundo Real já faz parte do simbólico. O que é o simbólico? É quase tudo que construímos e que resulta em nosso universo cultural. As instuições das quais fazemos parte, como a religião, é puro simbolismo. Na eucaristia se encontram os símbolos do vinho e do pão que “se tranformam” simbolicamente no sangue e no corpo de Cristo. Nossos funerais são símbolos de passagens, a aliança do casamento, as togas dos magistrados, as fardas das três forças (exército, marinha e aeronáutica), os uniformes, as bandeiras e os emblemas. Tudo que re-presenta é um símbolo, nosso dinheiro simboliza um valor para a aquisição de coisas. Não é só nesse nível que se encontra o Real simbólico. As festas, as roupas, os jantares, o jogo de sedução, o poder e as figuras de poder. A figura de um santo homem, o reverendo ou o título do magistrado, tudo é simbólico.
Quase tudo o que fazemos está calcado no símbolo, nossos amores e nossas decepções, são símbolos que se romperam. Desde a cadeira em que nos sentamos até a ideia de salvação que aquieta a nossa mente assustada frente ao desamparo da morte, é uma construção simbólica. Mas, ao tratar esse universo como simbólico, não queremos dizer que ele não exista. Existe enquanto Real simbólico. E não é o caso de combater a sua inexistência enquanto realidade última. Inventamos o mundo simbólico para que a vida possa se organizar dentro dele. Quando um paradigma é destruído, é uma ordem simbólica que se desfaz e um outro paradigma terá de ser construído em torno da Realidade que irrompe.
Arrumamos o mundo de acordo com nossa perspectiva. Deus e o mundo são as representações da perspectiva humana. Por isso, o homem nunca chega a um acordo sobre essas realidades. O mundo simbólico é como um crivo no horizonte, como uma linha que atravessa o horizonte da vida e a segmentariza em formas binárias. Isso cria a ilusão de que o mundo seja assim como nos aparece. Existe a linha sobre o horizonte e existe todo o resto. Existem as nossas crenças e a Realidade que põe tudo em demolição.
E por fim, há o Real Real, ou seja, todo o resto. Uma linha define tudo em termos binários: o bem e o mal, o feio e o bonito, o certo e o errado, o alto e o baixo, o morto e o vivo, o homem e a mulher. Nessa linha, coexistem o imaginário e o simbólico. E o que resta além da linha? Todo o resto. O Real Real. O avassalador deserto do Real que não se encontra em parte alguma, mas que se acha em toda parte. Nele, não chegamos nunca, mas ele nunca acaba de chegar. Somos atravessados pelo Real Real todo o tempo. Quando nos defrontamos com o impossível, quando perdemos alguém muito próximo, diante do inesperado, em nós ou fora de nós, é o Real Real que nos aparece. Nele nos arrastamos como verme.
O Real puro é o limite inacessível à consciência, não se representa na linguagem e é inimaginável. É o além de toda representação mental. O irrepresentável Real Real que nossas faculdades mentais evitam se confrontar. Diante dele, só há imposição, uma violência que nos força a pensar e criar. Quando nos sentimos nessa condição de “impoder” estamos paradoxalmente diante de nossa autonomia. Ante o Real puro, não há nada pre-determinado que defina a identidade dos indivíduos. O que prevalece é a diferença pura que não podemos prever nem controlar. Nesse sentido, não se fala mais disso ou daquilo, homem ou mulher, por exemplo. Não somos binários como definiu o simbólico. Somos efeito de uma síntese inclusiva de sucessivas conjunções “e”, “e”, “e...”. Somos isso e aquilo também.
Somos restos do resto...
ResponderExcluirA funçao do tal termo binário nunca nos serviu pra nada, por esses e outros motivos somos mais cegos que os próprios cegos,que paradoxalmente possam ate mesmo ver o que ignoramos. Eles veem porque sabem que nunca vao enxergar o que imaginam ver...
Tem uma frase que eu gosto muito...
"Durante um casamento finjam que ainda não são casados e tudo irá bem. Que haja sempre algo de não atingido e de inacessível entre os dois".
Ou seja, o "real real" nos tira da onde fomos acostumados a querer muito mais amanha o que queremos hj do que nao tivemos ontem...e isso pode nao ser bom talvez por nao sabermos ganhar alguma coisa pois quando ganhamos provavelmente perdemos outra..
R.C
Existem três espécies de cegueira, uma é a que não impede de perceber, muito pelo contrário, quando cegos dessa maneira, se é atacado por uma incrível capacidade de perceber e de se ter micropercepções. A outra, é a que se condena o cego a pensar que está vendo, mas ele nada percebe de fato. Esse só pode acreditar no que determinam que ele pense estar vendo. Mas é um outro que diz. É a pior das cegueiras, o cego não sabe que é cego. E por fim, a Cegueira Branca de José Saramago causada pelo Real puro. Não há nada para se ver, mas há tudo para se por à mostra, tudo para ser revelado. É preciso experimentar a Cegueira Branca para começar a ver de fato.
ResponderExcluirE ganhou o prêmio nobel de literatura..."A Cegueira Branca"... ela, "sai nao saindo ao mesmo tempo" rsrsrsr do meu comentário anterior feito em cima do seu texto, mas muito bem lembrado por vc, e ela, só é experimentada pelos empáticos, esses privilegiados que vieram com o DNA nobre, sem ela, (empatia)tudo é muito lindo na teoria mas na prática, impossível...
ResponderExcluirR.C
Desculpem se venho ignorantemente tecer comentarios sobre tao nobres exposicoes! Mas... fiquei na mesma duvida em que ando a vida inteira: se pra mim o Real Real parece tao obvio, por que o e'?? Nao estudei tanta filosofia assim... E se para um leigo o R.R. e' obvio, por que nao o e' para todos? Por que tantos seres humanos insistem em 'classificar', 'definir', 'julgar', 'limitar', 'impor', etc??? Nas minhas duvidas envoltas em nevoas (provavelmente de ignorancia ou preguica), me encontrei sem esperar num vazio de companhias, as conversas nao fluem, a empatia e' rejeitada, e a solidao ja deixou de ser atroz pra ser uma boa e querida amiga ha muitos anos...
ResponderExcluirxiiiiiiiiiii solidao nao pode ser uma boa e querida amiga, eu acho que vc deve ter descoberto que "vc e vc" se dao bem, ou seja, fizeram as pazes...e isso nao tem preço...é muuuuuito bommmmmm.
ResponderExcluirR.C
Sim...
ResponderExcluirOooooooooootimo!!!!!!
ResponderExcluirViver acompanhado nem sempre evita a solidao, mas quando ela aparece, estando eu acompanhada ou nao, e' bem vinda! Minhas "solidoes", ou momentos solitarios, sao generosos comigo, sao descomplicados. Valeu, RC e Clecio! Me senti mais que contente com seus comentarios!
Se procurarmos estar com alguém pra preencher algum vazio, (solidao) vamos estar só mascarando a solidao...mais cedo ou mais tarde, vamos ter certeza que esse alguém foi só uma anestesia...entendo que, se estamos bem com nós mesmos a solidao nao tem como morar em nós... e nem vamos aceitá-la como uma boa companheira...Eu quando me sinto só, eu nao procuro ninguem...a melhor coisa é fazer uma introspecção, achar o que está errado dentro de mim, mas nunca querer alguém pra mascarar a minha solidao...quando a anestesia acaba, a solidao é ainda maior, talvez insuportavel...espero que vc não tenha se acostumado com a sua "companheira solidão"...aí vc está vivendo por viver... que graça tem isso?
ResponderExcluirRC.
A solidão é uma condição humana, não cessa quando encontramos alguém, quando amamos, etc. Apenas ampliamos a solidão. A questão é pensar negativamente em relaçãoao ao que é condição humana.
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