Territórios
Os
autores do Anti-Édipo usam termos da
geografia para dizer do dinamismo da vida. Não são metáforas que aludem à
geografia, trata-se da realidade das linhas que traçam mapas intensivos de
territórios reais. Não é o mesmo território da natureza sedentária dos
Estados, são planos que se sobrepõem às linhas do mapa territorial do Estado.
Dentro das linhas de um mapa territorial existem gradientes – cruzamentos
intensivos de linhas virtuais-reais.
Gradientes são mapas de Quantidades
intensivas, cruzamentos de linhas que se movem em velocidade infinita – linhas,
sempre linhas. Da mesma forma que existem meridianos, latitude e longitudes no
mapa da Terra, existem linhas se cruzando nos mapas intensivos. Uma geografia
da física que não é visível, mas que está entrecruzada com a geografia dos
mapas do Estado.
A
natureza se encontra entrecortada de mapas que compõem as sobreposições de
linhas quânticas – gradientes. São diferentes formas de dizer da mesma coisa.
Para exemplificar, podemos pensar no canto do sabiá das montanhas, que começa
em setembro e vai até janeiro do ano seguinte.
O
canto do sabiá é um “ritornelo” – destaco para explicar depois – que, ao povoar
os vales, estabelece territórios de virtualidades reais. Cada sabiá cantando,
significa a demarcação sonora de um território – multiplicidade de linhas que
se cruzam no espaço perfazendo uma territorialidade. O pássaro alvo de
reprodução responde ao ritornelo e entra no território do acasalamento fazendo
cruzamento de linhas – biológica, mas também das linhas intensivas da física
atual.
Não percebemos nada dessa construção, apenas
ouvimos os sons cruzando o espaço e achamos que é tudo. Achamos que os pássaros
cantam para agradar nossos sentidos, como se fosse uma declaração do amor de
Deus aos homens – maneira infantil de olhar o mundo pelas lentes do senso
comum.
Os
animais fazem sons e ruídos com o propósito de garantir a continuidade da
espécie. Cada animal “sabe” do seu território pelos sons que emite. Outros,
pelos cheiros, pelas “danças” e cores que demarcam a territorialidade da sua
espécie.
Olhamos
com certa desconsideração os cachorros que, presos em suas coleiras em mãos dos
seus “donos”, lutam bravamente para realizarem aquela mijadinha ao pé do poste.
É sua territorialidade que se encontra ameaçada. Nisso, o vira-latas parece ser soberano. Ele vive solto nas praças
devidamente estabelecido nos parâmetros de suas longas mijadas. Sem pressa
alguma, vive solto no seu mundo. O vira-latas
é uma nova espécie de cão que aprendeu a viver no centro da cidade. Ele atravessa
a rua no sinal vermelho e na facha determinada aos pedestres - vira-latas no chão das praças e os
sabiás na copa das árvores fazem cruzamentos de linhas, gradientes da geografia
animal – mas sem se misturarem. Territorialização do mundo que se assemelha muito
ao modelo das “estradas aéreas” demarcadas pelas empresas de aviação. O
conjunto de “estradas” de todas as companhias de aviação é uma gradiente. Se um
avião desviar de sua rota poderá se chocar com outro de outra rota.
Podemos
concluir que os territórios dos Estados têm suas linhas de limites
territoriais, a terra tem seus meridianos, suas linhas imaginárias, mas não é
tudo. O mundo é subdividido em territórios, linhas lisas que se alternam, se
intercalam se sobrepõem umas às outras em um turbilhão – são linhas invisíveis.
Da
passagem da geografia do Estado para a geografia intensiva das
territorialidades virtuais-reais existem diferenças que demarcam umas das outras.
As linhas intensivas são móveis. Elas oscilam conforme a natureza da física -
são imanentes. Mesmo o avião que atravessa o céu escuro, de um continente ao
outro, tem suas linhas modificadas por variações da natureza. Talvez por isso,
as rotas de aviação tenham elasticidade no traçado de suas rotas – espaços de
sobra.
Quem
poderá dizer com exatidão os limites territoriais de um sabiá? Tudo indica que
deve ser o alcance do som de seu ritornelo. Mas o sabiá se desloca de um espaço
a outro e, onde pousa, volta a cantar restabelecendo ou ampliando suas linhas de
territorialidade.
Dizemos
isso para pensar o desejo na relação com a territorialidade do espaço
geográfico comum - mapa do Estado. As linhas do desejo são flexíveis e se
deslocam de um ponto a outro sem prestar obediência a nenhuma lei transcendente
– de fora dele. Os cruzamentos de linhas do desejo com suas novas linhas que
cria continuamente - as que recuam e deixam de existir - todo movimento, só é
determinado por leis interiores que definem o agenciamento que se faz com a
realidade exterior.
Uma
criança, assim como os animais da natureza, traça seus mapas intensivos quando
“escolhem” objetos ao desejo. As aspas são para lembrar que, o escolher não
significa uma consciência do tipo awareness,
de estar presente.
Os movimentos dos olhos de um bebê, o riso
espontâneo e “sua luta” corporal que trava continuamente com o adulto, são
agenciamentos do desejo do bebê com o mundo.
Não é o caso de não haver objeto para o desejo,
mas é que os objetos do desejo são todos parciais e fragmentados. Deseja-se o
mundo em fragmentos.
Um indivíduo quer seduzir uma “dada” pessoa
em “certa” situação e em “certo” lugar. Mas esse desejo de sedução está ligado
a “certo” estado geral de emoção que envolve um olhar, um corte de cabelo, “certa”
roupa com “certo” detalhe que mostrava (uma) “certa” parte do corpo... “Esses”
detalhes se perdem na territorialidade da sedução. A territorialização “desse”
território – dos amantes em ação – se desterritorializa continuamente.
Desterritorializar não significa terminar, extinguir-se, desaparecer. Um novo
agenciamento do desejo - a objetos determinados - se amplia continuamente,
recua por um lado e abre novas linhas, com novos agenciamentos que se operam –
nunca é um objeto solitário, mas um conjunto de fragmentos. É o que os autores
franceses chamam de estar em devir. O indivíduo entrar em devir quando deseja.
O desejo põe tudo em devir – falamos do devir em outro momento.
Atribuímos a nomenclatura, “real-virtual”, em
relação às linhas dos mapas intensivos para referir as condições de composição
física e material das linhas. As linhas intensivas são de matéria pré-formada.
São reais por que existem na realidade da física. Estão no mundo em estado de
pré-formação, por isso, são virtuais. São as linhas em estado de vir-a-ser.
Nesse
sentido, funda-se uma politica do desejo que pode ser chamada de micropolítica.
Nesse plano político tomamos os animais e os bebês como protagonistas das lutas
em favor dos agenciamentos do desejo. Eles lutam sem nunca desistirem, sem
derramar sangue – são máquinas de guerra.
A luta se trava nos territórios – de um lado,
a paranoia do Estado que insiste em organizar o desejo em organismos fechados.
Da mesma forma em que acredita ter feito na territorialidade do território
geográfico os organismos de Estado esperam fazer com o desejo. Os organismos de
Estado pretendem enquadrar os fluxos em lugares determinadas, em pessoas
definidas por ordem de produção binária – homem ou mulher, por exemplo.
Do outro lado, se acham os mapas intensivos
de grades de linhas que circulam a natureza – são as linhas do desejo nos
animais e no animal humano.
Os bebês e os animais são puro desejo. Os
bebês lutam sem saber contra a estratificação territorial do desejo em
identidades globais – papai-mamãe. São milhares de tentativas antes que uma
criança seja derrotada pela autoridade dos adultos em casa, na escola ou na
igreja. E os animais lutam contra as forças da natureza e contra a dominação imposta
pelo homem na natureza – “o homem como senhor da natureza”.
As máquinas paranoicas são esses organismos
em ação. Não é paranoia da mãe ou do
pai, a neurose de um e do outro, é a família como peça da máquina paranoica que
vai da casa à escola. Sempre que um fluxo escapa dos parâmetros
pré-estabelecidos, uma nova máquina lança-se contra a insurgência, captura e
marca o fluxo em figuras globais.
Daí, todo o sofrimento do elemento estranho
que aponta como afirmação da diferença. Quando um fluxo novo não é identificado
com “figuras globais”, é uma batalha tem inicio.
É um
“estranho” que surge no território das normas, ameaçando as identidades fixas.
Um anômalo é sempre assustador. Esses indivíduos com suas estranhezas são os
guerreiros nômades de quem nos referimos anteriormente. Eles fazem o pavor de
toda a sociedade. Um demônio das escuras que salta para fora das linhas
desfazendo o mapa das certezas. O mundo do moralista se desespera e aciona
todos os recursos das máquinas para capturar.
A sua maneira, Foucault mostra como a psiquiatria
esteve a serviço dessas máquinas paranoicas na História da loucura. O louco não é apenas o que se diz dele no
diagnóstico médico, ele é o anômalo, o insensato da esquina que
desterritorializa a cidade. Quantas descargas elétricas são necessárias na
cabeça de um insensato para faz dele “um dos nossos?”. Quanta tortura, quanta
solidão e abandono nos intramuros dos hospitais? Tudo para fazer desse
“estranho” o dócil sossegado da sociedade disciplinar – hoje sociedade de
controle.
Em nossos dias, surge uma nova figura “louca”,
os drogaditos das ruas. Nada pode ser
mais repugnante e ameaçador à sociedade dita civilizada do que um bando de
usuários de craque que se move como nuvem pela cidade. O sistema inteiro se
desorienta. Até hoje não se sabe o que fazer com esse fluxo louco que salta
para fora da ordem. Todo fluxo livre é “louco” até que se saiba o que fazer com
ele.
Não é o fato de defendermos a “droga e o
drogado” como modo de fazer a politica do desejo. A nossa questão é das
territorialidades que se sobrepõem. A territorialização do Estado em cima dos
territórios intensivos, da natureza e do desejo, que é a mesma coisa, mas
respeitando os graus de velocidade de cada um.
A droga é uma coisa e o drogadito é uma forma perigosa de fazer política do desejo. O
dependente da droga não anula o fato de ele mesmo constituir uma queda nas
experimentações do desejo – isso já nos diz muita coisa.
Tambem foi a aula de hoje e adorei!!!Parabens professor e nao esqueca de me avisar quando for para o seu experimento. Marcia Benicio
ResponderExcluir