Intercessores

Não precisamos valorar as ideias, dar-lhes um estatuto de justiça ou justeza, assim como tentaram fazer com a vida, esquecendo que à vida nada falta, não é uma questão de valorá-la ou aquilatar o pensamento, mas de transvalorar os valores. 

Os encontros são agenciamentos de ideias e é desses encontros que se extrai a potência dos conceitos. Para Deleuze e Guattari, a história da filosofia sempre se comportou como um agente de poder em relação ao pensamento. Se não se leu Platão, Descartes, Hegel, Kant, Heidegger, como se pode estar falando essas coisas? “Uma formidável escola de intimidação que fabrica especialistas do pensamento, mas que também faz com que aqueles que ficam fora se ajustem ainda mais a essa especialidade da qual zombam”. 

É assim que a história da filosofia concebe a filosofia. Essa história é feita como uma forma de “intimidação do pensamento”, uma forma de fazer o pensamento ter receio, um meio de fabricar especialistas da justiça e da justeza. Diferente do pensamento que se orienta pela imanência, pelo movimento da vida, pelo plano rizomático, que não se reporta a Descartes ou a quem quer que seja. Deleuze prefere usar como intercessores os autores que pareciam fazer parte da história da filosofia, mas que escapavam dela, ou por um lado ou por todas as partes. Todos eles, curiosamente, têm uma vida atravessada pela fragilidade, entretanto, com uma constituição insuperável.

 Eles procedem apenas por potência positiva e de afirmação. Talvez, o que esses pensadores tivessem de tão sedutor, fosse esse “culto à vida”. São encontros entre pessoas e ideias que fazem um outro tipo de história da filosofia, assim como foi o encontro de Deleuze e Guattari: “o que fizemos foi um agenciamento a dois, onde algo passava entre os dois”. Sobre esse encontro, Deleuze se refere como tendo um devir-filósofo e muitos outros devires. “Félix era um homem de grupo, de bandos ou de tribos, no entanto, era um homem sozinho, deserto povoado de todos esses grupos e de todos os seus amigos, de todos os seus devires”. 

Nesse tipo de encontro, não é o trabalho a dois que conta, não é o que cada um faz estando em dois: “mas o que contava para nós era menos trabalhar juntos do que trabalhar entre-dois”.

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