Identidade – VI


No caso individual seria como a criação de uma baixa auto-estima que leva uma pessoa a se entregar ao abandono de si mesmo. O indivíduo não consegue se perceber com seus valores e passa a ter como norma de julgamento de si um padrão interiorizado que não lhe pertence, mas que passa a julga-lo negativamente.
A psicanálise criou o conceito de mecanismo de defesa chamado de, “formação reativa”, que atua nesse caso individual e no social. Em situação de discriminação de raça, o indivíduo vitima da discriminação passa a interagir com o outro que discrimina para confirmar o ato discriminatório.
O mecanismo de defesa faz com que a pessoa ou grupo social passe a “preservar, difundir e fortalecer formações reativas de natureza desmoralizadora – todas as formas de preconceito e de discriminação raciais se vinculam, funcionalmente, à defesa da ordem social em que emergem socialmente” (Id.).
O poder atinge seu ápice de dominação quando a condição de subjetivação atinge a ordem psíquica e social. Daí para frente tratar-se-á da manutenção da ordem que já pode contar com a colaboração do dominado.
Quando a formação identitária se encontra estabelecida é quando o cinismo do dominador pode confirmar que “já és um dos nossos”. Em nosso caso, “as vítimas do preconceito desenvolvem opiniões, avaliações e representações raciais que as levam a consumar, pelas próprias mãos e, aparentemente, por decisões próprias, os atos irracionais de sacrifício extremo” (Id., p. 549).
Não é incomum se encontrar pessoas de cor negra com desanimo incorporado ao traço de personalidade. As frases que denunciam tal situação psicológica e social que aparecem na representação de cor, são: “não pode ser de outra forma, somos pobres e pretos”, “as coisas são assim mesmo, nascemos pobres temos que nos conformar à nossa condição de pobres e negros”. Frases como essas se encontram na mentalidade como estrutura social de cor e que é válida tanto para o negro como para a classe de baixa renda.
Para Florestan, essas “formações reativas constituem o único recurso que os extremamente fracos possuem seja para proteger seu equipamento psicológico seja para resguardar sua ‘dignidade moral’ (id., p. 549).

Como se percebe, os modos de subjetivação que levam à construção da identidade são lamentáveis e necessários até certo pondo. Lamentáveis por que legitimam o estatuto social de segregação. E minimamente necessários para manter o indivíduo vivo dentro do sistema que o discrimina.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Escolhas

Livre arbítrio

Reversão... II