Identidade – II


A questão da identidade vista e resumida por fora, impõe certa forma de pensar que não corresponde à realidade mesma. 

Por outro lado, não revela o preconceito de raça que se esconde por trás da suposta “situação idílica vivenciada no país”. 

O cruzamento das raças como marca identitária de uma nação escamoteia a realidade em conflito contínuo que se encontra muito além das definições que se desenvolvem a partir das noções antropológicas. A “mistura das raças” como tese científica de uma suposta conformação racial e ausência de conflitos aparece como solução cientifica para problemas gerais de conflitos raciais.

O fato crucial é que a definição de uma identidade pacífica e harmoniosa como resultado da miscigenação, esconde todo preconceito que se revela no sistema de dominação do europeu sobre o indígena e o negro. 

O negro é escravo e o índio colonizado. As pesquisas parecem encomendadas por agencias internacionais que desconheciam as verdadeiras condições de desigualdades dos povos – colonizadores e colonizados. 

Conforme Florestan Fernandes, “a hipótese sustentada era que o Brasil significava um caso neutro na manifestação de preconceito racial e que seu modelo poderia servir de inspiração para outras nações, cujas relações eram menos democráticas” (Fernandes, 2006, p. 14).


O mito da “democracia racial” que faz derivar a crença num povo “bom”, “pacífico” e “alegre” esconde as desigualdades que marcam a linha que segrega negros de brancos. 

A tese do “não preconceito” é no mínimo preconceituosa, porque evita falar das condições reais em que as diferenças que separam os brancos dos negros não sejam percebidas enquanto condições culturais que caracterizam a sociedade brasileira. 

Consequentemente, o olhar que busca localizar a identidade do povo brasileiro fica prisioneiro do senso comum e nega o conflito que se revela no absurdo de classe. As desigualdades e discriminação ficam relegadas ao pano de fundo da identidade oriunda do mito. E como todo mito é uma explicação de uma realidade inatingível, as origens das desigualdades e da discriminação racial devem permanecer silentes debaixo da identidade.

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