Identidade IV
A
crença que diz não haver conflito racial no Brasil não mascara a realidade de
classes que estrutura as divisões sociais gerais da sociedade. “Depois da
abolição o padrão tradicionalista de relação social continuou” (Florestan,
2008, p. 544).
Homens de cor de um lado e brancos de outro é o que caracteriza
a nossa sociedade Na verdade, o negro tem que se adaptar ao mundo dos brancos.
E para ascender na escala social precisa branquear a cor da pele, ser um preto
de alma branca, um negro, mas boa pessoa, sujeito confiável. "Um negro, mas cumpridor das tarefas, vai à igreja, tem família, trabalho, etc."
A verdade é que existe um congestionamento
dos indivíduos não brancos na fila da ascensão social.
Florestan faz uma lista
de condições manifestas da existência do preconceito de cor. “Entre os brancos:
manter o negro em seu lugar. Combinar a distancia social e desigualdade racial
de modo a impedir o acesso do negro a posições e papeis sociais concebidos como
apanágio do branco” (Id, p. 545).
É
só olhar vagamente a distribuição do espaço urbano, áreas nobres de branco e as
periferias dos negros. Quem vive maiormente em favelas? O acesso ao ensino
público, gratuito e de qualidade pertence quase absolutamente aos brancos, a
chegada do negro a uma universidade é sempre uma exceção.
Por outro lado, as
cadeias se abarrotam de negros revelando a outra face do que vem a ser
violência. Uma segunda condição manifesta: “manter o negro na linha – ou seja,
agindo em consonância com as normas, expectativas de comportamento e valores
sociais decorrentes da disposição do branco” (Id, pp. 545 – 546).
Técnicas de
controle social que vão desde a casa, à escola, dessa à igreja e daí ao
trabalho. Os limites são prefixados no senso comum e se espalham pelo tecido
social. A sociedade é dos brancos, os valores, atitudes e normas são oriundos
da sociedade europeia e passam a fazer parte do comportamento da sociedade descolonizada.
A
vantagem da demarcação social se percebe na autonomia de funcionamento das instituições
sociais. Tudo depois de posto funciona como engrenagens das máquinas, são na
verdade máquinas sociais que, uma vez lubrificadas pela ideologia dominante
branca, tende a funcionar sem ruídos aparentes.
Pelo menos é o caso de não existirem
enfrentamentos raciais públicos. O preconceito e o racismo só vão aparecer no desenho
da sociedade. O morro é dos negros, a orla da zona sul é dos brancos. Os
melhores empregos e melhores salários pertencem aos brancos, o subemprego é dos negros e dos mulatos que não conseguiram ascender.
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