Morrer e viver
Desconcertante pensar na morte
de alguma coisa que acontece no seio da vida, desintegrando projetos e sonhos,
que aniquila radicalmente tudo.
A morte é estranha à ordem simbólica. Basta
pensar na radicalidade da ausência irredutível do ser que acaba de morrer. Ele
nunca mais vai aparecer, exceto na imaginação e nos sonhos dos que ficaram
vivos.
Mas, por mais terrível que se constitua a visão da morte e do morrer,
por mais desejo que tenhamos de uma vida sem a morte, me parece que nosso mundo
teria sérias dificuldades de viver sem a morte.
Viver eternamente só pode ser
maravilhoso enquanto um sonho adequado à imaginação. Imaginem não poder morrer
eternamente! O primeiro atentado é contra a liberdade de morrer. Podem surgir
os argumentos contrários de que a vida eterna será um gozo idílico e ininterrupto,
onde ninguém desejaria morrer.
Digo que não há gozo ininterrupto que não se
torne imediatamente insuportável. O imperativo do gozo já se constitui em anti-gozo,
pois, não existe nada mais insuportável do que um dia perfeito atrás do outro.
Gozamos no gozo intercalado de ausência de gozo. O gozo é buscado, ele não é
dado. Todo gozo, causa tédio e fastio em sua sucessão sem fim.
É preciso
experimentar sucessivos estados de ausência de prazer para que o prazer possa
ser experimentado – pelo menos, é assim que nossa mente funciona na vida que
conhecemos.
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