O Eu inventa aquilo no que acredita
Acreditar é preciso! Não estamos
propensos a acreditar que existam deuses guiando a nossa vida. Mas o fato de
estamos lançados na imensidão do universo é que nos impõe a crença em alguma
coisa que pode estar lá fora cuidando de nossas vidas. Não há nada de genético
nisso, trata-se de uma experiência que nos proporciona um aprendizado ao longo
da vida. Nesse caso sim, esse aprendizado pode ser transmitido geneticamente.
Nisso não há nada de especial, os hábitos também são transmitidos geneticamente.
Nascemos ateus, e cresceríamos ateus se
soubéssemos conviver com o desamparo, a solidão e a finitude de nossas vidas.
Se a crença num deus fosse proveniente da natureza, os crentes não precisariam de
tantos ritos para manter a sombra da ideia da existência de um deus. É preciso
muitas rezas e orações, muitas renúncias, cultos de manhã, de tarde e à noite.
Idas diárias, semanais e ao longo do ano e da vida, para que a memória da
existência de um ser soberano não evapore da consciência. Se fosse de ordem
natural, assim como a fome, sede, ou o desejo sexual, não precisaríamos de
tantos sacrifícios para impor a ideia de um deus verdadeiro. Quantas mortes,
quanta dor, quanta carne dilacerada não foi preciso para que a lembrança de um
deus moral fosse inscrita na mente humana.
Outro grande equívoco da crença é o fato
de que ela viria junto com a ideia de que esse deus, que cuida de nossas vidas,
o faz no sentido de mantermos a nossa felicidade. Não percebemos, com isso, que
a felicidade é algo que nós mesmos procuramos como se um dia a tivéssemos
perdido. Além do mais, não nos damos conta de que a noção de felicidade é
particularmente singular. Um indivíduo que possui muito dinheiro pode ver nisso
o motivo de sua felicidade. Logo, o dinheiro será visto como uma benção divina,
e ganhar dinheiro será sinal do amor de deus. Daí, se segue que qualquer coisa
que proporcione felicidade terá deus junto. Nesse caso, todas as ações em favor
de possuir a felicidade estariam legitimadas pela justiça divina. E o seu
impedimento seria visto como a injustiça de algum outro ente, que interferiria
no amor de deus para com os homens. Porque deus, nesse caso, nos amando, não
nos deixaria infelizes.
É um pensamento infantil que leva o homem
a acreditar em seus próprios atos abençoados por deus quando tudo vai bem. E
quando os indivíduos se encontram em estado de miséria, de dor ou abandono pensam
que deus lhes abandonou, lhes estaria
provando, ou que estariam entregues ao seu oposto, um ente mal. Sempre uma
axiomática em busca de um argumento que costure as falhas da crença na verdade.
Ou uma resposta ao maior pavor do homem, ou seja, de o fato de que o único
sentido da existência é existir forçados para frente, impelidos à produzir
sentido.
Afinal, além da vida mesma, nada na vida
é dado. Esse fato inconstestável despedaça nosso narcisismo fundado na ilusão de
que seriamos os únicos seres diferentes na natureza. De fato, não somos. É só a
ilusão que agrada nossa velha crença de superioridade racial. A natureza
continua seu cíclo enexorável quer nos beneficie ou não.
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