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Solidão e Liberdade III

  O avião teve uma pane, caiu no deserto — foi o motor que quebrou. O piloto está tentando consertar. Mas como um avião poderia decolar nas areias do deserto? Esse relato seria de um sonho ou é mesmo uma ficção? Isso não importa. As crianças não se importam com detalhes dessa natureza. Na mente das crianças, tudo parece ser um sonho ou uma ficção, é com o imaginário que estamos lidando. O mundo que se perdeu nos adultos foi a capacidade de confabular. Em O pequeno príncipe , essa capacidade volta ao adulto que faz um duplo de si. Ele, como no sonho, pode ser o piloto que tenta arrumar o motor do avião emperrado nas areias do deserto, mas também pode ser o menininho de cabelos dourados que aparece pedindo um favor:   — Por favor... desenhe um carneiro para mim... — O quê?! — Desenhe um carneiro para mim. [1] Por Clécio Branco – Psicólogo e Filósofo Do livro: Isso não é um chapéu: reflexões acerca do Pequeno Príncipe Editora: LC-Produções – Curitiba - Brasil ...

Solidão e Liberdade II

  Assim é para Martin Heidegger esse ser lançado no mundo — a princípio, sem um predicativo, o ser nu, sem direção ou essência, é o momento ontológico do ser humano, desse ser que pode dizer-se ser. A forma adulta de se posicionar no mundo. Todos nós somos empurrados para a construção de nós mesmos, única alternativa de existir com significado. O sentido (ou a essência) do ser nunca é dado, mas produzido pelo vivente no mundo. A relação com o outro é importante, mas não deve subverter a autenticidade da produção do sujeito em que se tornará. Os diálogos que se seguem podem ser tomados como uma reflexão interiorizada com a criança que foi, mas que retorna sempre na imagem nostálgica do que se perdeu. Aquilo que, nas vicissitudes dos encontros, nos tirou do caminho não deve ser a causa de não construirmos um caminho singular. Lembro, ao meu modo, as palavras de Sartre: “O mais importante não é o que fizeram com você, mas o que você vai fazer com o que fizeram”. Por Clécio Branco – ...

Solidão e liberdade I

  Por Clécio Branco – Psicólogo e Filósofo Do livro: Isso não é um chapéu: reflexões acerca do Pequeno Príncipe Editora: LC-Produções – Curitiba - Brasil   Todo mundo quer ser livre, sonha com a liberdade, mas poucos querem pagar o preço que ela cobra. Ser livre atrai o peso da solidão — esse é o preço.        Ainda na primeira pessoa, o narrador se revela um escrutinador da alma humana. Depois de ter analisado os encontros com os adultos, da infância à vida adulta, depois de ter conhecido um pouco dos seres humanos, sentiria imensa solidão, preço que se paga por ter consciência: “E assim vivi, solitário, sem ninguém com quem pudesse conversar de verdade, até o dia em que deu uma pane no meu avião e fiz um pouso forçado no deserto do Saara. Isso aconteceu faz seis anos”. [1] Não é coincidência que a “imensa solidão” preceda a imagem do “deserto do Saara”. As duas realidades caminham juntas, assim como a solidão e a liberdade. Talvez a influê...

O BANQUETE

  O homem é frequentemente descrito como naturalmente religioso: busca o que vem do Alto, tem sede de Deus. Convencionou-se, nessa chave, identificar o psiquismo com essa inclinação. Vale lembrar, porém, que essa concepção é histórica; sua forma clássica nasce com os gregos. Para Platão, tal impulso não é um problema, mas um propulsor que eleva o homem à esfera inteligível, onde se contemplam as Ideias. Longe de inibir, isso estimula o filosofar: é pela filosofia que o pensador pode aspirar a uma estabilidade, inteireza, justeza e perenidade que a condição mortal lhe nega. A divisão do mundo, operada por Platão, instaura uma diferença de natureza entre dois planos. De um lado, há o plano divino das Ideias: o mundo ideal acima das estrelas, o reino das essências ou formas puramente inteligíveis, lugar dos modelos superiores. Trata-se de uma realidade verdadeira, que existe em si e permanece imutável, idêntica a si mesma, apreensível apenas pe...

Desejo e política

  O desejo de interagir com o mundo — por meio da cultura, da literatura, do afeto ou da sensualidade — parece, hoje, cada vez mais vigiado. Como se a própria vitalidade da vida, em sua pluralidade de expressões, fosse vista com desconfiança. Em meio à complexidade da existência, esse impulso criativo e transformador encontra obstáculos sutis, impostos por estruturas que buscam domesticar o desejo e restringir a liberdade de manifestação. Michel Foucault, se estivesse entre nós, talvez reconhecesse em nosso tempo a materialização mais intensa de sua ideia de “sociedade de controle”. Certas figuras públicas, investidas de autoridade institucional, ocupam posições estratégicas em áreas sensíveis — como educação e família — e, por meio de discursos normativos, reconfiguram os sentidos do desejo, da produção intelectual e da experiência afetiva. Em gestos simbólicos e políticas concretas, essas intervenções deslocam o desejo para o campo da moralidade, atribuindo-lhe significados que o...

La Modernidad Líquida en Bauman y Marx

La expresión "todo lo sólido se desvanece en el aire" está frecuentemente asociada a la idea de constante transformación y efemeridad en la modernidad. Bauman, en su teoría de la "modernidad líquida", explora cómo las relaciones sociales y las estructuras se vuelven cada vez más fluidas e inestables, en contraste con la "modernidad sólida" anterior, marcada por estructuras rígidas y duraderas. Marx, por su parte, señala la dinámica del capitalismo, donde el capital-dinero simboliza esa fluidez, transformando todo en mercancía, incluyendo el trabajo y los recursos humanos. La idea de que en la "Peste", metáfora para tiempos de crisis o opresión como la invasión fascista en Francia, la esencia de ese sistema se revela de manera más cruda. El fascinio por la mercancía y el consumo se convierte en un mecanismo de dominación y alienación, donde hasta nuestra identidad y valores son comercializados. ...

A Modernidade Líquida em Bauman e Marx

  A expressão "tudo o que é sólido se desmancha no ar" é frequentemente associada à ideia de constante transformação e efemeridade na modernidade. Bauman, em sua teoria da "modernidade líquida", explora como as relações sociais e estruturas se tornam cada vez mais fluidas e instáveis, em contraste com a "modernidade sólida" anterior, marcada por estruturas rígidas e duradouras. Marx, por sua vez, aponta para a dinâmica do capitalismo, onde o capital-dinheiro simboliza essa fluidez, transformando tudo em mercadoria, incluindo trabalho e recursos humanos. A ideia de que na "Peste", metáfora para tempos de crise ou opressão como a invasão fascista na França, a essência desse sistema se revela de forma mais crua. O fascínio pela mercadoria e pelo consumo se transforma em um mecanismo de dominação e alienação, onde até mesmo nossa identidade e valores são comercializados. Esta análise se a...