Desejo
O desejo sofreu esta transformação curiosa, se interiorizou. É a
castração, é a falta, é a impossibilidade irreversível: “você tem que aprender a
conviver com isso”, “essa é sua questão”, ou ainda, “esse é seu problema”.
Não é mais uma carência a ser suprida, mas uma carência a ser assumida. É uma concepção lamuriosa do desejo, chorosa, um mar de desgraças.
Se já
não fosse suficientemente entristecedor, é preciso lembrar que a carência, a
lamúria e a falta se constituem em terreno fértil para os sacerdotes.
O que vai
se construindo é uma progressiva despotencialização da vida. Em outras
palavras, o homem vai se afastando do que pode: ele deixa de ter fé na terra e
passa a lamentar estar nela.
E o sacerdote vai viver dessa lamúria, as religiões
vão até mesmo aprofundar esta lamúria.
Aprofundam-nas porque dela vivem.
Dessa forma, os sacerdotes são chamados para oferecer um bálsamo que
alivie as dores. Eles intensificam a dor para depois aliviarem, esse é o
comércio.
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