Amor
Tanto em Aristófanes, quanto nesse diálogo de Sócrates com Agáton, o
amor busca algo que ele não tem, o amor busca algo do qual carece, busca
algo que está fora dele, busca algo para preenchê-lo, é a mesma história de desejar ter o futuro que não tem.
O amor, então, busca algo que seja perene, eterno e imortal.
A perfeição do objeto deve compensar a imperfeição do sujeito. O que
temos aqui? Uma transcendência, uma teologia.
Em que sentido é
transcendente? Algo que vem de fora, que vem de cima e que vai suprir a
falta. Essa matriz transcendente está inteiramente intocada, ela permeia nosso
discurso e nossa vivência do desejo.
A matriz permanece intocada por que ela
é desencarnada, fixa e suspensa acima do mundo.
Agora já se é mais sofisticado, já não se acredita nesse objeto salvador,
tal como fora em Platão. Não se crê mais neste objeto que viria nos salvar.
De
uma certa forma, ficou-se até mais triste, porque se fez da resignação a esta
carência uma nova religiosidade:
se o desejo foi definido como uma carência, então, essa carência sempre anseia por uma completude, e não podemos
dizer que esse anseio não seja religioso na sua matriz.
O que interessa para esse trabalho são os pares: perfeição-imperfeição,
eternidade-mortalidade, completude-incompletude.
É a dialética da
dependência que faz com que o homem dependa daquilo que não tem.
O
homem fica dependendo sempre desse preenchimento, dessa compensação
que o objeto pode oferecer em relação às insuficiências, carências e
precariedades.
Carência e precariedade são a mesma dinâmica da
religiosidade.
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