Máquina de guerra da infância IV
Para Deleuze, o erro começa pela escolha errada do plano. O plano
submete a teoria: desde o começo, não é a teoria que determina o plano. Um
plano de organização já teórico em seus fundamentos. “Pois o fracasso faz parte
do próprio plano: é preciso, com efeito, sempre retomar pelo meio, para dar aos
elementos novas relações de velocidade e de lentidão que o fazem mudar de
agenciamento, saltar de um agenciamento para outro”.[1]
Quando se está diante de Quantidades intensivas, não é mais de
um plano de organização que se vai tratar, há variações de posição que depende
das conexões e dos agenciamentos com a univocidade do ser e desejo.
O que está
em jogo são as multiplicidades e os agenciamentos maquínicos que constroem o
plano, que se encontra determinado por graus de potência: velocidade, repouso e
lentidão.
Daí em diante, não existem apenas dois sexos que submetem toda
interpretação (do olhar teórico) e preocupação da moral familiar; existem vários
sexos que se conformam e dependem do número de agenciamentos em que o indivíduo
se vê envolvido. Cada um de nós é uma multidão agenciada e agenciando-se;
estamos em agenciamentos constantes que nos lançam em n sexos.
Se a preocupação passa por essa questão, de sermos ou não sermos, isso
ou àquilo, então já não faz mais sentido algum. Quando a criança se descobre
isso ou aquilo, homem ou mulher, também depara com sua impotência e sua
ansiedade de ter ou não ter certeza sobre o que é.
Perde-se o sentido maquínico em detrimento de uma definição
transcendente e puramente instrumental. Longe de seu corpo sem órgãos, a
criança se vê diante do verdadeiro eu depressivo, quando roubam seu inumeráveis
sexos. A verdadeira castração está no roubo dos n sexos que a criança-máquina
tinha por essência.
Esquecem que as definições de homem e de mulher deveriam
levar em conta, antes de tudo, sua natureza ligada aos fluxos: “Todos os
devires que há no fazer amor, todos os sexos, os n sexos em um único ou dois, e
que nada tem a ver com a castração. Sobre a linha de fuga, só pode haver uma
coisa, a experimentação-vida.”[2]
A psicanálise define a sexualidade pelo órgão e sua finalidade (forma
de pensamento teleológico). Ela não pôde esquivar-se da cultura falocrata e
manteve a definição de homem centrada no pênis, o que a levou a pensar em um
único sexo masculino, definido pelo órgão-pênis.
O clitóris, por analogia
grosseira, é um pênis que não se desenvolveu: um pênis pequeno e malfeito que
jamais pudesse crescer.
Desse modo, passamos de uma analogia científica para a fundação de uma
homologia fundada sobre o significante fálico, e não mais sobre o órgão-pênis.
A instauração do binômio sexual fica atrelada à masculinidade, ou seja, o
feminino deriva da masculinidade, que não pode entrar em devir, por ser o ponto
de partida do significante do fálico.
A fé da estrutura reside nesse ponto que faz tudo girar em torno de uma
definição fixa: os dois sexos, mesmo que se reduzam os n sexos a dois, passam a residir no interior de todos nós. Tudo
ficaria reduzido a uma questão psíquica, carrega-se uma dualidade sexual
psíquica (bissexualidade psíquica) que implica a homologia entre o desejo pela
vagina no homem e a inveja do pênis na mulher.
Tudo isso para confirmar a tese da castração; solda-se o desejo na
castração para interpretá-lo como imaginário ou simbólico. Está pronto o plano
de organização para a infindável interpretação.
O jogo rico da diferença se
reduz a apenas duas: homem ou mulher; o que escapa é excluído como terceiro
estranho, mas que será reintroduzido pela intrusão de uma máquina desejante e
tudo será subvertido.
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