Máquina de Guerra da infância II

As tentativas de agenciamentos maquínicos da criança e seu devir-animal vão sendo sufocados. Hans quer descer as escadas para se juntar à sua amiguinha Mariedl e dormir com ela. Segundo os autores, “movimento de desterritorialização pelo qual uma máquina-menino se esforça para entrar em um novo agenciamento”.[1]
Hans vem de um agenciamento com seus pais e se, na cabeça da criança, um agenciamento não é exclusivo (não há esse tipo de interpretação), na cabeça dos adultos é. Eles estão presos a agenciamentos excludentes: essa família, e não outra; dentro dessa casa e fora dela; homem e mulher etc. 
A primeira tentativa de desterritorialização será malsucedida, pois as premissas da casa já definiram as “cartas do jogo”: Hans está subordinado ao modelo de agenciamento exclusivo. Em sua compreensão, as moças da casa não são como deveriam ser. Segundo seu ponto de vista, há algo (estranho) que o impede de ir até lá. 
Mas ele não para por aí; ele faz outra experimentação (criança não desiste nunca), decifra a economia política das proximidades de sua casa e encontra num restaurante uma parceira mais adaptada às suas intenções: “uma mulher” em espaços abertos. É a segunda tentativa de desterritorialização do espaço segmentário da casa. Atravessar a rua como meio de transposição do espaço-casa.
Há, ainda, um compromisso firmado com o pai, voltar de tempos em tempos à cama deles: reterritorializar em Édipo. Nessa negociação, Hans é levado a pensar na pequena Mariedl ou no agenciamento-rua com a outra moça – nenhum dos dois casos será possível. 
É a família burguesa que inventa o desejo pela mãe para completar o ciclo de Édipo. O menino deseja sair para o mundo e fazer agenciamentos com os objetos da rua, mas é com a mãe que é obrigado a permanecer. Nesse sentido, o objeto do desejo é inventado para depois ser proibido. 
Não há proibição sem objeto desejado e, como não existe objeto para o desejo, logo deverá ser inventado. Não há por que se espantar com a fobia de Hans; ele é forçado a voltar para a mãe como objeto dos desejos e, ao mesmo tempo, fica proibido de obtê-la com a culpa de tê-la desejado.
Deleuze/Guattari criticam o impedimento sistemático do ato de dirigir o desejo ao mundo, na medida em que ele é estrategicamente remetido de volta a constelações individuais. Num só e mesmo gesto, forçado e proibido, assim lhe é interiorizada a perversidade chamada Édipo, com quem se trava a primeira batalha subjetiva de uma política.



[1] DELEUZE, G., Deux regimes de fous – textes et entretiens, 1975-1995, p. 81.

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