Amor ao próximo possível

Vimos que a impossibilidade do amor ao próximo consiste da intolerância radical do ser humano a qualquer alteridade vinda por parte do próximo. Não suportamos o excesso de gozo do próximo, não aceitamos conviver com a diferença do próximo. É tarefa da moral de rebanho erradicar as diferenças que escapam ao ponto de tornar o “próximo” o mais próximo possível a fim de torná-lo semelhante. O que confirma a impossibilidade de amar o próximo ainda vivo. O amor ao próximo só é possível com o “próximo morto”, depois de erradicar a diferença e proclamada a fantasia do rebanho, quando a alteridade estiver silenciada no interior do próximo, então se obtém a forma de “amor” mais condicional existente, “amor de rebanho”. “Amo-te por seres um como eu mesmo sou”. 


O silêncio do rebanho é para evitar o confronto com a verdade traumática, do fluxo louco que não se pode registrar e codificar. Verifica-se uma longa sucessão de medidas pedagógicas e disciplinares para se confirmar um rebanho: uma taxionomia de transmissão de valores, departamentos, especialistas, verificações, testes que incluem “recompensas e punições”, até que se possa afirmar: “você está pronto, agora é um dos nossos, fala a nossa língua”. O que caracteriza o rebanho é que as pessoas não se olham mais umas nas outras, fingem concordar em tudo. Cria-se uma causa comum para onde olham, assim pensa-se ser feliz, anulando-se umas nas outras em detrimento de um valor extrínseco que supõem constituir a comunidade de iguais. Mas há algo negado nessa lógica do rebanho, por isso classifico como uma ilusão que mantém o rebanho infantilizado. A metáfora da ovelha se aplica bem ao rebanho, anda enfileirada, uma após outra, obedecem, não criam transtornos, dão lã e fazem bééé. Ao mesmo tempo  a moral do rebanho suprime a alteridade, cria a falsa crença de se obter o controle do que escapa. Esquece-se do excesso de gozo que determina todo sujeito, esse é o momento mais temido, de maior insegurança no rebanho. 


Por isso, a lógica do rebanho inclui castigo e recompensa. Renunciar a si mesmo em favor do “silêncio dos inocentes”, mas quando um fluxo descodificado escapa, entra em cena os rituais de punições: proibições, penalidades, silêncio decretado, discriminações e exclusões nos casos de maior rebeldia. O que escapa é o excesso de gozo, o maior sinal de alteridade. O gozo é mais do que prazer, o prazer é estabilizado, “o gozo é desestabilizador, traumático e excessivo”. A moral de rebanho almeja domesticar o gozo em parâmetros de estabilidade fazendo promessas de rebanho. É preciso muita vigilância, muita polícia, muito castigo e muita dor para fazer a negação do gozo, uma economia do gozo. Mas o gozo pode se travestir de múltiplas formas, goza-se no fanatismo, goza-se no totalitarismo fascista, goza-se com a máscara da humildade, goza-se na dor. Por isso, a neurose é carregada de um gozo sombrio, uma espécie de dor com prazer. Não importa, o amor ao próximo pode até vestir essa máscara de ingênua hipocrisia, “sabem disso”, mas é em favor de uma causa comum. “O Outro é aceito, mas somente na medida em que for aprovado por nossos padrões”. Por isso, volto a dizer, amamos o próximo morto em suas diferenças e alteridade.


Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Bravo!!!!!!!Meus sinceros aplausos para o texto!!!! Parece que você descreveu uma experiência da minha vida, muito bom mesmo!!!Mas Clécio me surgiu uma dúvida, qual seja, sempre quando estamos inseridos em uma coletividade, estamos dentro de um rebanho? Porque tenho percebido que, em qualquer grupo (faculdade, igreja, trabalho, confraternização, telespectador), sem exceção, tem gente querendo dominar e outros querendo ser dominados, é assim mesmo ou é fruto da minha interpretação?
    Abraços!!!

    ResponderExcluir
  3. Rafa, o rebanho não seria um estado de conformidade? Uma passividade em relação a outrem que submete?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Reversão... II

O cristianismo seria grego?

As sínteses II