O inferno
Estamos imersos em uma pandemia. O que parecia distante, quase uma relíquia medieval, tornou-se uma realidade palpável entre nós. Após um dia longo e estranho, o pôr do sol trouxe consigo uma transformação na ordem das coisas. As ruas, antes repletas de movimento, agora se encontram quase desertas. Apenas os animais de rua, como cachorros vira-latas perfeitamente adaptados à vida urbana e gatos noturnos, perambulam livremente.
A praça, envolta numa neblina solitária, contrasta com as cores vivas das flores que exalam diversos perfumes. Ao cair da noite, a "dama da noite", com seu aroma adocicado, reina soberana nos espaços vazios deixados pelos humanos. Seu perfume é o dominante nas noites frias, antecedendo o inverno na Serra, como se fosse o sussurro da natureza reivindicando seu espaço.
Caminhar solitário nestes tempos tem um sabor paradoxalmente delicioso, quando o medo da contaminação levou as pessoas a abandonarem as ruas, refugiando-se em suas casas. Descobrimos, de repente, a amarga verdade de que a presença do outro se tornou uma ameaça. A proximidade, antes desejada, agora é evitada a todo custo, conforme se murmura por trás das máscaras.
Trata-se de uma forma de violência sem contato físico, uma violência que nos leva a esquivar-nos de nossos semelhantes. O "próximo" deve manter-se distante, especialmente se estiver doente. A COVID-19, com seu nome codificado, expôs nossa impotência, antes negada, e alterou nossa percepção do próximo, revelando nosso desamparo frente ao outro e à natureza desconhecida. Adoecemos não apenas fisicamente, mas também emocionalmente, sofrendo com a solidão e o desamparo de um mundo onde o próximo não mais se arrisca a estar perto.
Jean-Paul Sartre, em um contexto diferente, disse: "O inferno são os outros". Lacan também refletiu que o desejo do outro pode tornar a vida insuportável. No entanto, agora desejamos que o outro permaneça distante, que não nos deseje, invertendo o sentido original dessas ideias.
Slavoj Žižek, por sua vez, argumenta que "o amor ao próximo é impossível", sugerindo que esse amor só se torna viável quando o próximo está morto ou suficientemente distante para não nos incomodar. Para Žižek, a morte mencionada é metafórica, referindo-se à eliminação das diferenças, à homogeneização em uma comunidade de semelhantes. Comunidades, em sua visão, tendem a repudiar as diferenças, revelando uma visão de mundo mesquinha, centrada nos valores de um grupo que se considera detentor da verdade.
Este momento de pandemia é, portanto, uma oportunidade para reavaliarmos tais perspectivas. O vírus não apenas revelou sua face infernal, mas também expôs a face humana, com todas as suas fragilidades e preconceitos. É um convite a repensar a relação com o outro, a valorizar a diversidade e a reconhecer a interdependência que nos une, mesmo quando a distância física se torna uma necessidade.
Clécio, como estás! Como te achar??? Tantas perguntas....
ResponderExcluirParabéns pelo dia do psicólogo. Você é único.
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