Dinheiro - série


A “lógica da reversão monetária” na bela série, La Casa de Papel, criada para TV espanhola por Álex Pina, mostra a fragilidade do sistema econômico e suas contradições. 
Carl Marx teria visto parte de suas teorias econômicas se cumprirem nessa série. Supostamente, em 2011 o Banco Central Europeu mandou a casa da moeda imprimir 171 bilhões de dólares, 185 bilhões em 2012 e 145 bilhões em 2013.
Todo esse volume de dinheiro foi para Bancos europeus cobrirem rombos no sistema financeiro – ou seja, para cobrir saldos em contas de investidores milionários. 
Esse tipo de transação milionária não é considerado crime pelo sistema jurídico, dependendo das pessoas que operam e da posição que elas ocupam no sistema econômico. O crime só definido pelos indivíduos que governam e fazem parte do jogo que criar valores ao papel moeda. Nesse caso, de um lado tem as pessoas de bem (e de bens), do outro lado, dos que não têm aquele poder de valorar papéis em dinheiro, estão os criminosos.
É o caso do bando de assaltantes liderado pelo Professor (Álvaro Morte) que decide assaltar a Casa da Moeda da Espanha. De forma singular entram no prédio do Edifício da Casa da Moeda decididos a imprimir cerca de um bilhão de euros em papel moeda. O que chamo de “Lógica de inversão” está no ponto em que o professor relativiza o que vem a ser um crime, no caso de imprimir dinheiro. O crime é definido por quem pode imprimir dinheiro contra quem não pode. É uma posição do mundo simbólico com seus simbolismos. O dinheiro seria um simulacro de valor - do modo platônico de mundo das ideias - e a impressão não a autorizada por lei seria um simulacro do simulacro, o que seria imputado como crime. A primeira impressão de moedas foi para socorrer os banqueiros, aqueles mesmos que "não fizeram o dever de casa" e, por isso, não se prepararam para a crise econômica daqueles dias.
Se a mesma ação for executada para destinar riquezas aos já ricos, ou seja, imprimir dinheiro “do nada” para um sistema econômico de mercado de capitais não seria considerado crime.
Por que a mesma ação, que não envolve tirar dinheiro de ninguém, mas apenas imprimir as cédulas em papéis, seria crime? Seria porque muda o destino e o destinatário. Também seria crime porque haveria uma sobreposição de valor do papel. No primeiro caso, dos valores perdidos na crise financeiro, imprimir dinheiro vale como correção do erro de cálculos dos planejamentos econômicos. No segundo caso, os ditos criminosos, imprimem o dinheiro por decisão deliberada, para se enriquecerem.
A série nos faz ir mais longe, se cada indivíduo imprimisse livremente a quantidade de dinheiro que desejasse, o sistema financeiro implodiria? Parece que sim. O dinheiro só tem valor numa relação de troca e sua escassez: trabalho e salário, dinheiro e mercadoria etc. Se a moeda fluir livremente, sem o controle operacional das trocas, ela mesma – a moeda – seria o seu término. Por isso, a tese marxista de que o capitalismo morre em suas contradições. O cinismo latente do capitalismo é criar a ilusão de que o sucesso estaria no volume de dinheiro que se possa ter. Não é. Levando em conta que todos desejam dinheiro, e que não há nada que garanta que esse desejo teria controle voluntário dos indivíduos, tudo indica que o fluxo de impressão de moedas não teria fim. O resultado seria o colapso, ou a mercadoria teria que subir de preço em escala ilimitada ou todo dinheiro, seja qual for o nome que receberia, perderia o seu valor. 
O dinheiro em si, só pode ser riqueza se estiver sob o controle de um sistema que o faço desejado, necessário e escasso em relação às mercadorias. E parece ser assim mesmo. Dinheiro é poder para quem o tem. Nesse caso, os que têm dinheiro podem comprar a força de trabalho dos que não têm. Trabalha-se para se adquirir dinheiro e comprar mercadorias. O equilíbrio de oferta e consumo se dá na relação exponencial entre ter dinheiro em fluxo ou não ter.
Logo é evidente que não se pode imprimir dinheiro em escala indefinida ao bom prazer individual. Por isso, seria crime hediondo imprimir dinheiro para si. No caso da série, não é crime imprimir dinheiro, como foi, se o autor da ação for o Estado que controla o sistema econômico que dá as cartas do jogo de valor. 
O crime, nesse caso, é uma criação de Estado. Na a reclamar, foi o que decidimos um dia no Pacto Social, o de que todos abririam mão de parte de seus desejos individuais em favor de um, o Estado. A questão é que esbarramos num limite do desejo do Leviatã. Quem limita o desejo do Estado quando o desejo de alguns se imiscui no corpo abstrato do Estado? Quem julgaria o crime quando o criminoso é o ente que define o que seria crime? Uma invenção conveniente. Essa é uma conclusão válida. 
A outra conclusão seria, caso chovesse dinheiro, ao ponto de acumular montes nas ruas e praças do mundo, todos os dias como em folhas de outono, o mesmo dinheiro perderia o seu valor ou a disparada dos preços teria que acompanhar a grande oferta do fluxo de dinheiro. Pior ainda, nesse estado caótico, de dinheiro caindo do céu o tempo todo, não seria crime imprimir dinheiro livremente ou esse crime estaria longe de ser cogitado por se tornar trivial e mais caro do que qualquer papel achado nas praças.

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