O fogo I

Lembro das queimadas, olhando da janela de meu quarto, na pequena Belém de Maria. A cidade de poucos habitantes, tinha um prefeito para governar sobre pequenos agricultores de uma agricultura familiar de subsistência. 

Um vale minúsculo, com um riacho no meio, sinuoso entre montes - era o rio panelas. A razão das queimadas, que se espalhavam nos montes na velocidade dos ventos, era a palha seca da cana de açúcar. Talvez, o único motivo da existência de um prefeito governando um arremedo de cidade. Coisa vista por mim na infância no clássico, O Pequeno Príncipe. 

- Havia lá, um rei solitário, em seu minúsculo planeta que mesmo sem súdito, permanecia rei sobre o vazio da ausência de gente para justificar a sua soberania. Seu momento de glória é marcado com a chegada inesperada do Pequeno Príncipe, seu único súdito por um breve tempo, no planeta de um único morador, o rei - 

Em Belém de Maria, a cana de açúcar, monocultura que remete à colônia, justificava a existência de um prefeito, soberano sobre as plantações de cana, que queimavam duas vezes ao ano em diferentes morros do lugar. 

O fogo começava pequeno, um palito de fósforo, um isqueiro de acender cigarros, uma faísca e pronto. A palha seca da cana é combustível para o fogo, cresce rápido, se alastra crepitando morro acima. 

Se houver um vento, e tinha sempre, as labaredas sobem em forma de línguas - bonito de se ver nas noites insólitas do lugar - mas devastadora no caminho por onde passa. 

Só ficava a cana chamuscada que serviria aos usineiros de tantos lugares distantes do pequeno lugarejo - o dito prefeito era um desses.

O fogo queimava tudo, ardia a terra, destruía a vida silvestre, tantas vidas pequenas, pássaros, répteis. Além das fagulhas que faziam o céu turvo, cobriam as casas, pintavam de cinza o vale. 

O fogo é devastador, ele tem corpo, cresce na direção da destruição, onde houver vida ele devora. As chamas são a boca insaciável do fogo. 

Por destruir a matéria que submete - penso eu, criou-se a ideia de purificação do fogo. Consagrou-se o fogo. O fogo do inferno tendo em contra partida o medo, a submissão, o poder de queimar os divergentes. Quanto lucro a igreja suprimiu daí!? 

O fogo das fogueiras da inquisição. Milhares de vidas, inocentes ou não, mostrou-se como "o mal pode ser feito tão plenamente, quando se faz em nome de Deus..."

Comentários

  1. Hoje notoriamente o fazem em nome de um deus, da familia, da moral, da tradição e bons costumes...Mas acredito que só uma parcela minima o creia...os instigadores são apenas hipócritas que insuflam contendas pela opção sexualdo cidadao enquanto fa ilitam o trabalho escravo e distribuem ração as criancas...tempos tristes e nebulosos...

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