Ignorância
Não estou usando
esse termo no sentido comum - de ser ignorante, de tratar o semelhante com
ignorância, etc. - mas no sentido de não saber “sobre”, no sentido de ignorar
as causas reais e atribuir um sentido baseado em crenças. Por que é tão difícil
destruir uma crença? Talvez por que o deslumbramento imbecil seja destruído
junto. As crenças se sustentam pelo uso da autoridade e do poder. É preciso
estar de acordo “com” para fazer parte de um sistema de crenças. É preciso
haver comissões de “especialistas” para designar o “verdadeiro”, vigilantes da “verdade”,
moralistas do “bem” para fazer valer as regras.
Meios de vigilância
e punição para coibir os transgressores das regras. Essas são as formas de uma
macropolítica sem o prejuízo de uma micropolítica. Ou seja, antes de haver uma política
de administração e vigilância da “verdade”, existe um estrato de uma
micropolítica interiorizado na cabeça dos indivíduos. Nesse caso, é quando os
homens passam a acreditar na “verdade”. Por exemplo, na crença de que a
natureza é harmônica. E consequentemente na crença em que a harmonia da
natureza está associada ao bem.
Consequentemente,
a desordem seria o mal contrário ao bem
da natureza. A princípio, tal ideia nos pareceria inocente e sem nenhuma consequência
à vida dos indivíduos, mas não é simples como parece. Quando aparece alguma
coisa na natureza que não corresponde ao harmônico e ao bem, baseado nessa crença, logo, surgirão argumentos para
justificar e explicar a desarmonia. Nesse sentido, nos encontramos num mundo
dividido entre o Bem e o Mal. Quando tudo está harmônico dir-se-á ser do bem,
mas quando falta harmonia e o caos se instala conclui-se imediatamente ser da
ordem do mal.
Esse sistema
de pensamento forja uma percepção da vontade de ver o harmônico ainda que seja
o caos que se manifeste. Se a natureza é harmônica é porque é obra de Deus. Esse
é o circuito que se fecha na crença de um Deus harmônico. Mas por que existe a
desarmonia? Uma doença, por exemplo? Por que as tragédias naturais que revelam
de uma forma assustadora a presença do caos? Para manter a lógica da
argumentação, dirão os interpretes da vontade da verdade: as tragédias são as consequências
da obra humana. Ou, dizendo de outra maneira: as tragédias, as doenças são
efeitos do pecado. Ou ainda, são mistérios da vontade de Deus.
Primeiro se
faz um minucioso trabalho de subjetivação que inclui as crianças em idade
vulnerável: medo e castigo relacionados à desordem. E recompensa e prazer
relacionados à harmonia. Obediência se relaciona à harmonia e desobediência se
liga ao caos e desarmonia. Nos dois casos, cada um no seu justo momento, se
justifica a recompensa e o castigo. Da micropolítica à macropolítica, da mente
ao individuo, do individuo à família, da família à igreja e à escola. Como
diria Foucault, você não está mais na sua casa, está na igreja, não está na
igreja, está na escola e assim se projetando no mapa mundi.
Os homens
acreditam no mundo em que a disposição de sua vontade de harmonia criou para si
um deslumbramento imbecil onde não cabem os processos desruptivos da natureza:
quando esses ocorrem são atribuídos à ordem do mal e do mistério de Deus.
Esta gaiola moralista e controladora que o homem recebe como herança familiar, sem jamais questioná-la ou perceber seus resultados que desassossegam, está enfiada na sua cabeça e segue-o em todos os espaços visíveis e invisíveis. Pronto está, portanto, para (se) vigiar e (se) punir, "tutti quanti"...foucautianamente.
ResponderExcluirMarcos Lúcio
É a seguimentarização que marca o homem... nos mínimos espaços somos um animal seguimentarizado.
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