Saídas

Entramos no mundo chorando e sorrindo sem saber por quê. Partimos de uma imaginação vinda do Outro, que nos diz sermos o que somos: nome, crenças, valores, normas e atitudes são provenientes do Outro, que funciona em nós como um espelho. Mas o fato crucial e trágico é que não temos como saber que somos o desejo do Outro, e, no entanto, somos de fato determinados por esse Outro no qual (ou “contra o qual”?) nos debatemos. Acreditamos por falta de uma linguagem que nos possibilitaria discordar.

Esse fato, o modo como entramos no mundo, marca uma primeira atitude política em nossa vida. Um dia teremos que nos revoltar, nos insurgir contra o que nos tornamos sem saber o que ou como. Essa primeira insurreição, necessária, marca os processos de singularização.
Um indivíduo - ou um povo, uma sociedade - precisa se insurgir, propondo, de início, uma questão, sendo ela: o que estou permitindo que façam comigo? Daí, se precipita um processo que não tem previsão de acabar. Para que a vida seja ética, cada indivíduo precisa se tornar uma síntese de sua natureza biológica, de sua educação familiar e, extensivamente, escolar, e, finalmente, do que ele faz com tudo isso.

Entramos no mundo por essa porta estreita do Outro, que me deu a fala e o falo, mas que, nesse processo de me dizer quem sou eu, também os toma de mim. Cabe aos indivíduos humanos criarem as suas múltiplas saídas para o mundo. Rebelando-se contra tudo que é fixo e normatizante, para que a vida possa encontrar passagem. Que as normas, os valores e crenças sejam tão flexíveis quanto a plasticidade da vida. Uma entrada, mas muitas, infinitas saídas.

Comentários

  1. Adoro seus textos. Sua fala nos remete à reflexao sobre a vida e seus motivos. Meu amigo, como encontrar as saídas? Nao nos ensinaram isso,antes sim, nos condicionaram a nao escolher, só aceitar.
    Um abraço.

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  2. As saídas são ausência de excesso de reflexão. Creio que viver um dia de cada vez facilita muito!

    Espero ter ajudado...

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  3. Não vamos cair na aparente simplicidade, que é um risco à acomodação. A saída ainda está na produção e não na simples espera de uma solução transcendente.

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