quarta-feira, 22 de maio de 2013

Molar e molecular IV


Voltemos à questão do cruzamento molar/molecular de Félix Guattari. Guattari diz que a “matéria é corpuscular e ondulatória, ao mesmo tempo”[1] ([2]). É  a tese do Anti-Édipo, algo da ordem molecular (desejo) se passa no meio das estruturas políticas que pertencem às formações molares, mas não só nesse caso, o desejo escorre por entre as coisas. Enquanto fluxo que escorre e é interceptado por um órgãos, se encontra em nível molecular, sensações subcorticais? Não só as lutas sociais, mas as lutas individuais são, ao mesmo tempo molar e molecular. As lutas esquizofrênicas e os delírios paranoicos não são menos molares do que moleculares. 
Os milhares de orifícios na pele de Schereber, são a mistura desses graus de intensidades, de linhas de um antigo mapa que cruzam com linhas lisas de sensações puras. A linguagem e as formas não são suficientes para dar conta desse real molecular. O delírio surge como expressão, uma política de vida. 
Como não perceber o delírio como expressão de um excesso que o acervo da subjetividade não comporta? O inconsciente é maquínico, “simplesmente para sublinhar que está povoado não somete de imagem e de palavras, mas também de todas as espécies de maquinismos que o conduzem a produzir e reproduzir estas imagens e estas palavras”.[3] Molar/molecular é uma virada primeira da sínteses do indivíduos, forças cósmicas que se cristalizam nas formas.
Voltemos à divisão da primeira e da segunda tópica seguindo a física. O inconsciente é de dupla face, molecular e molar. “[... ] Micropsíquica ou micrológica e outra estatística e gregária?”.[4] O inconsciente está ligado à física, o corpo sem órgãos é a própria matéria, as intensidades e as linhas são o seu mapa intensivo. Então já não precisamos mais da noção de pulsão de morte. Chegamos no elemento da natureza que dobra e desdobra como na fita de Moebius. Somos ao mesmo tempo molar e molecular. Presos por uma lado às formações sociais de grupo, aos estratos: Édipo familiar. Por outro lado, determinados por forças do desejo. De Platão à Freud, o homem ou a razão humana, é prefigurado na imagem de um animal sem rédeas. 
A razão ou homem da razão está sob esse animal que não se domou. “Forças inextrincavelmente ligadas, sendo umas as forças elementares através das quais o inconsciente se representa, já sofrendo recalcamento e repressão de suas forças elementares produtivas”.[5] Quando há uma ruptura na forma – molar - é porque uma onda micrológica invadiu o sistema social. Da-se um nome errado para a espiritualidade quando se atribui  essa força aos fenômenos sociais de uma religião - como lembram Deleuze/Guattari em para além do vitalismo e do mecanicismo -,  e introduzirem um mecanicismo molecular em tudo, “as próprias coisas que supomos puramente espirituais não passam de rupturas de equilíbrio numa série de alavancas que são demasiados pequenas para serem percebidas ao microscópio”.[6].
O elemento mínimo é o molecular que faz a diferença para o plano de consistência das máquinas. É a mesma política, consistências molares e moleculares que se instauram umas em relação às outras. Essas relações se referem diretamente com processos primários que põe em jogo as formações dos processos secundários do consciente e do pré-consciênte, energia ligada e mecanismos de inibição contra fluxos livres. Guattari chama atenção para o fato de que, “essa relação geração/transformação, parece-me ser, no momento, um caso particular de relação molar/molecular”.[7] 
O que Guattari vem ressaltar é a existência de uma “[8]proto-subjetividade, aos agenciamentos vivos [...] microfísica de entidades elementares passivas”, ou seja, existe uma subjetividade inconsciente antes de haver a subjetividade por mecanismos de enunciação. Mesmo que os sujeitos se desloquem da casa para a escola, da escola para fábrica, ainda que, diante dos aparelhos de mass mídia  se reforce as linhas de segmentaridade dura, agenciamentos de enunciação semiótica e agenciamentos maquínicos reais não permitem fundar um sistema “transcendente de lei que ‘cobriria’ o conjunto das leis e das singularidades”. Não mais uma subjetividade sob a palavra que define o mundo, tudo aquilo que define o formalismo transcendental é posto em relação à modos de subjetivação de natureza humana e/ou não-humana ao mesmo tempo. 
A “árvore da vida” ou o “livro-mundo” raízes do sentido não passam de uma ficão. Nenhuma referência transcendente pode suportar a velocidade dos agenciamentos que são de múltiplas ordens: biológicos, mentais, sociais, desde que sejam capazes de maquinar encontros de heterogêneos. Os biólogos nunca conseguirão fechar a conta da diversidade das espécies se elas estão em profusão rizomática. Os navios que atravessam os mares trazem nos lastros espécies de outros mares que se misturam nos oceanos do mundo inteiro, criando novas espécies. 
Somos todos efeitos de contágios, de vírus e bactérias. Eles mesmos são organismos em estado de emergência contínua. Ao mesmo tempo, somos misturas de corpos e ideias que percorrem o mundo. Somos matilhas moleculares que povoam desde o inconsciente e que se projeta no campo social. “Uma infinidade de agenciamentos criadores, sem intervenção de um Criador supremo, uma infinidade de componentes, de índices, de linhas de desterritorialização, de maquinismos proposicionais abstratos: tais são os objetos de um novo tipo de análise do inconsciente”.[9] A passagem por um vértice de subjetividade, supostamente homogênea, não garante um sujeito da subjetivação em ruptura com o cosmos.   




[1] GUATTARI, F./ROLNIK, S. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Editora Vozes, 1986, 127.
[2] A despeito da crítica (Sokal & Bricmont, 2010, pp. 155 – 160), não nos parece um equivoco ter sido citado um postulado da física quântica para referir-se aos termos. Deleuze/Guattari aplicam o modelo às lutas sociais. Digamos que o erro esteja na ausência de um aprofundamento na física, mas não na aplicação da verdade da física no campo das lutas política. Seguindo esse “método” bricoleur, nossos autores podem ter se equivocado em dados momentos. Assim demonstram Alan Sokal & Jean Bricmont em “Imposturas intelectuais”. Ao colherem pedaços da física, Deleuze/Guattari não foram suficientemente coerentes com àquele campo de conhecimento que inclui a física e a matemática. Entretanto, os dois cientistas, numa única frase esboçam uma defesa da dupla Deleuze/Guattari. Dizem: “certamente, Deleize e Guattari são livres para usar esses termos com outros sentidos: a ciência não possui o monopólio na utilização de palavras como ‘caos’, ‘limite’, ‘energia’ (pp. 155 – 156). Depois da brevíssima defesa, os autores serão implacaveis na crítica aos filósofos. Deles não escapam Lacan, Kristeva, Latour, Baudrillard, Virílio, dentre outros. Não desejo com isso sair em defesa de minha limitação nem da deles.
[3] GUATTARI, F. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise. Tr. Constança M. César e Lucy M. Césra. Campinas: Papirus, 1988, p. 10.
[4] DELEUZE, G./GUATTARI, F. L’Anti-Oedipe, p. 336.
[5] DELEUZE, G./GUATTARI, F. L’Anti-Oedipe, p. 374.
[6] DELEUZE, G./GUATTARI, F. L’Anti-Oedipe, p. 338.
[7] GUATTARI, F. O inconsciente maquínico: ensaios de esquizoanálise. Tr. Constança M. César e Lucy M. Césra. Campinas: Papirus, 1988, 150.
[8] Idem.
[9] Idem, p. 154.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Molar e molecular III


A realidade é, no entanto, outra, não existe tal diferença entre “produção”, “distribuição” e “consumo”, já que a própria “produção” é, ao mesmo tempo, “registro” (distribuição) e “consumo”, não há esferas separadas, mas sim diversos níveis de um mesmo processo produtivo: “De sorte que tudo é produção: produções de produções, de ações e de paixões: produções de registros, de distribuições e de anotações; produções de consumos, de voluptuosidades e de dores”[1]. Homem e natureza se acoplam numa dobra que permite ao corpo receber sensações puras da natureza. 
O paradoxo dos cones que funciona como misturador. Uma máquina fonte acoplada a uma máquina órgão sem metáfora. Um lugar no cérebro ou no corpo inteiro, já que o cérebro está em cada milimetro da pele. Um lugar esquizofrênico no homem, seja no sistema subcortical, seja no inconsciente que se liga a essa parte do organismo. 
O universo entra no indivíduo por uma porta aberta ao infinito fazendo do desejo um fluxo que transborda por completo o campo das pulsões e os objetos eróticos humanos, projetando sobre a totalidade do que se refere à ideia do processo primário de Freud enquanto desejo não ligado, carente de objeto fixo. 
Essa hipótese pode ser condensada seguinte figura: processo de produção-máquinas desejantes-esquizofrenia-ontologia-psiquiatria materialista. O Homo natura, não é o homem que sai de sua vida de compromissos e vai para a montanha, mas o homem das máquinas desejantes, “realidade essencial do homem e da natureza”.[2] 
Para os autores este é o primeiro sentido do termo processo, ao que se somarão outros dois: 1) Conduzir o “registro” e o “consumo” ao plano da “produção”, fazer destes domínios três esferas de um único processo: 2). Aplicar este procedimento à dicotomia “homem-natureza”, desconstruindo assim as barreiras que tradicionalmente separaram um da outra. Pois não são duas realidades colocadas frente a frente, a “essência humana” da natureza e a “essência natural” do homem remetem à mesma idéia de “Natureza” como “processo de produção”.
 Neste sentido, havemos de abandonar as categorias ideais, o império da representação - sujeito-objeto, causa-efeito, interior-exterior, alma-corpo, eu-não-eu - e introduzir ambos os elementos, “produtor e produto”, no seio de um único ciclo que se identifica com o princípio imanente do desejo e com a efetividade do processo produtivo, alcançando com isto a categoria de produção desejante, que será um dos conceitos “esquizoanalíticos” fundamentais: “Por isto, a produção desejante é a categoria efetiva de uma psiquiatria materialista que enuncia e trata o esquizo como Homo natura”.[3] O homo natura entra na história, mas ele é ao mesmo tempo molecular/molar.


[1] DELEUZE, G./GUATTARI, F. L’Anti-Oedipe, pp. 10 -11.
[2] Idem, p. 16.
[3] DELEUZE, G./GUATTARI, F. L’Anti-Oedipe, p. 11.

Molar e molecular II


Em nível social podemos encontrar o mesmo processo agindo no seio das classes sociais. Não é o caso da “traição” dos ideias da classe trabalhadora? Um devir molecular sombrio pode ocorrer a qualquer momento. É que a “massa” ou “multidão” pode irromper no meio da classe trabalhadora que se identifica mais com o “povo”.

 Mas uma classe ou um povo pode se transformar ou deixar nascer em seu interior uma multidão molecular. Mesmo quando Canetti define o termo massa, ao longo dos exemplos, até chegar ao fogo ou ao mar, é de uma potência que está falando. A força que se acha no meio da massa é da ordem molecular. Mas as classes são talhadas na massa, no molar e no molecular. É sempre uma organização de forças.

 Tais organizações não impedem que entre os estratos, corram livres, elementos moleculares que vão atrapalhar a máquina social e burocrática. As microprocessualidades que escorrem por entre as coisas, são as máquinas desejantes que desarranjam qualquer estrutura macro. 

Seguindo O Anti-Édipo, defendemos as máquinas desejantes como o terceiro termo que faltava para unir homem e natureza numa universal produção primária. “Já não há nem homem nem natureza, mas unicamente um processo que os produz um no outro e acopla as máquinas”.[1] 

Construiu-se a crença de que a natureza e a indústria sejam duas realidades contrapostas, dois processos distintos, um em frente do outro, um operando sobre o outro, fazendo da natureza um objeto alheio, estranho, que se pode e deve manipular: não em vão o homem explora (racionalmente?) o meio em virtude do paulatino desenvolvimento dos modos (econômicos) de produção e de (uma) certa dinâmica bidirecional (circuito de retroalimentação), extraindo (input) da natureza inumeráveis matérias-primas ou recursos energéticos e dando (output) em troca não poucos resíduos. 

É mais, consideram que a dicotomia “sociedade-natureza” se acha na base daquela crença, vinculada por exemplo com o sistema capitalista, que faz da “produção”, a “distribuição” e o “consumo” um conjunto de esferas independentes, autônomas. Retomando aqui as análises de Marx propõem que esta classe de distinção, ou distorção, quer dizer, o par categorial “indústria-natureza” ou a seqüência “produção-distribuição-consumo”, pressupõem junto ao próprio capital e à divisão do trabalho a percepção que o indivíduo capitalista tem do conjunto do processo produtivo e do lugar que ocupa no mesmo, perspectiva que naturalmente não é alheia ao problema fundamental da falsa consciência.



[1] DELEUZE, G./GUATTARI, F. L’Anti-Oedipe, p. 8.

Molar e molecular – passagem do misticismo à filosofia



A totalidade do ser é, pois, atravessada “pelas duas segmentaridades e ao mesmo tempo: uma molar e outra molecular”.[1] Tomamos o nagual em comparação ao plano liso de segmentaridade molecular. Semelhante ao  desterritorializado. E o tonal, como o território territorializado[2] que passa por desterritorialização e reterritorialização o tempo todo: máquinas desejantes e máquinas técnicas e sociais se alternando sem interrupção. O tonal em todos nós. Mas a totalidade do ser inclui o nagual que está logo ali. Somos uma ilha em meio a eternidade do nagual. O poder paira sobre a ilha tonal. “No momento do nascimento, e durante algum tempo depois, somos todos nagual”. A multiplicidade é de dois níveis, qualitativa e estatística. “Mas são inseparáveis [...] porque coexistem, passam uma para a outra, seguindo diferentes figuras como nos primitivos ou em nós”.[3] Percebemos figuras de conjunto dentro das limitações de nosso tonal pessoal. Andamos de tal maneira dentro de nossas “roupas”, decoramos gestos, maneira de falar e pensar até ao ponto de uma conformação  quando todo mundo se faz alma coletiva. Nada disso impede de termos “micropercepções inconsciente”. Nada garante que o tonal não seja invadido por linhas de nagual. Que tomamos por microprocessualidades e comece a trabalhar uma na outra, desfazendo e intercambiando segmentaridades. Chamam de “uma micropolítica de percepções”. Vemos isso acontecer em meio aos cortes binários. Nenhum julgamento moral, por mais terrível que fosse, mesmo a destruição de Sodoma e Gomorra não pôde impedir que uma multiplicidade  saltasse para fora confundindo a lei binária da sexualidade. “... Os dois sexos remetem a múltiplas combinações moleculares que põem em jogo não só o homem na mulher e a mulher no homem, mas a relação de cada um no outro com o animal, a planta”.[4] Reintroduzimos a sabedoria indígena, “é preciso ver a totalidade” para perceber a junção molar e molecular agindo ao mesmo tempo. A astronomia pode ser uma ciência maior, mas foi através de micropercepções que Copérnico e Galileu descentram a Terra. A física de Newton não andaria sem o olhar voltado para o micro do micro (divisibilidade do átomo) de Heisenberg, Bohr, Prigogine etc. E não chegaríamos à física atual. Micropercepções partem sempre de organizações molares.  Numa conversa entre dois, há todo um jogo molar-molecular: olhares, gestos, maneirismos, seduções, um extenso jogo de adaptadores de ego em ação. Sinais reconhecidos de produção molar e signos “estranhos” subentendidos num gesto de boca, franzir de testa, pressão de lábios, etc.


[1] DELEUZE, G. e GUATTARI, F. Mille Plateaux, p. 260.
[2]A noção de território aqui é entendida num sentido muito amplo, que ultrapassa o uso que fazem dele a etologia e a etnologia. Os seres existentes se organizam segundo territórios que os delimitam e os articulam aos outros existentes e aos fluxos cósmicos. O território pode ser relativo tanto a um espaço vivido, quanto a um sistema percebido no seio da qual um sujeito se sente “em casa”. O território é sinônimo de apropriação, de subjetivação fechada sobre si mesma. Ele é o conjunto de projetos e representações nos quais vai desembocar, pragmaticamente, toda uma série de comportamentos, de investimentos, nos tempos e nos espaços sociais, culturais, estéticos, cognitivos” (GUATTARI/ROLNIK, 1986:323).
[3] Idem, p. 90.
[4] Idem, p. 91.

domingo, 19 de maio de 2013

O fora II


Dizíamos da dificuldade de pensar a unidade homem-natureza, tal dificuldade nos levou construir um edifício de conhecimentos em cima de uma ignorância. Pela ausência de um terceiro termo que unificasse homem e natureza, o pensamento se orientou pelo bom senso que pensa apenas na separação de onde vem o verdadeiro. “A totalidade do ser” não pôde ser percebida. Diz Don Juan, “você está em algum ponto no meio, ainda querendo ter tudo sob a rubrica da razão”[1], por isso, nem pôde pensar o outro gato, nem mesmo sabia o nome do outro. “Você com sua razão eu com minha vontade”. Os nomes podem não ser os mesmos – Nietzsche e Castañeda -, na mão de um, “vontade” é conceito, na do outro é pré-conceitual. Mas não importa se a questão é a unidade ou, para não se afastar muito, é a univocidade do Ser. No fim de tudo, “ter de acreditar que o mundo é misterioso e insondável era a expressão da preferência íntima do guerreiro. O índio não conceituou a “vontade de potência criadora”, misteriosamente ele a habitava. Numa espécie de amor potente pela vida o guerreiro o mundo através de uma “ilha tonal”, carregando os fardos de seu tonal sem o ressentimento do “homem verídico”. A compreensão advinda da percepção da totalidade do ser é maior do que se possa sintetizar no sistema sensório motor a serviço da razão. “Eu diria que o tonal e o nagual estão no domínio exclusivo dos homens de conhecimento. No seu caso, essa é a tampa que fecha tudo quanto lhe ensinei”.[2] Se o tonal é tudo o que somos, tudo o que tem um nome, como poderemos pensar ele por ele mesmo? Como pensar o nagual pelo tonal? Enquanto o tonal for esse “guarda mesquinho e despótico” nada pode ser feito. Mas não podemos nos livrar dele, podemos torná-lo um “guarda de larga visão”. Tudo o que pensamos faz parte do tonal, mas o nagual está ali rondando a ilha. Suely Rolnik[3] lembra que a neurociência tem descoberto que a nossa estrutura cerebral contém uma dupla capacidade por trás de nossos sentidos, uma cortical e outra subcortical. A primeira nos possibilita apreender o mundo em sua forma imediata para depois projetar nela o sentido que dispomos em nossa memória. Esse nível de percepção se encontra relacionado ao tempo, a história e ao sujeito. Só podemos perceber aquilo que se mostra à primeira estrutura cortical. Uma mesa só pode se apresentar pela perspetiva que à percebemos. É, ao mesmo tempo a nossa condição de perceber, e a maneira como a mesa se deixa ser percebida. São essas condições que tornam a mesa universalmente reconhecida. Percebemos linhas segmentarizadas que compreendem uma exterioridade. É o hábito que nos capacita construir um mapa mental e por ele nos guiarmos. Vemos porque (re)conhecemos e nos reconhecemos nesse mapa. Nos movemos num sítio cujo hábito nos faz crer que as coisas permanecem estáveis minimamente. Por baixo da estrutura cortical funciona a subcortical habita uma região pouco conhecida, resultado de milênios de repressão. Essa área extremamente importante de nosso cérebro permite a apreensão do mundo em sua forma de puro campo de forças. O que chega ao nosso corpo em forma de pura sensação. Francis Bacon traduziu isso em sua pintura. A história do sujeito e da linguagem não engloba essa área mental-cerebral. Pelo menos assim parece suceder em nossa cultura ocidental. Através desse sistema a vida pré-subjetiva é uma presença viva, “feita de uma multiplicidade plástica de forças que pulsam em nossa textura sensível, tornando-se assim parte de nós mesmos”.[4] Com o primeiro sistema (sensório motor) construímos a relação sujeito-objeto e nos separamos do resto do mundo. Mas o “corpo vibrátil” permanece fazendo parte do todo corporal. A totalidade do ser se compõe de um mundo tonal/nagual. Não é uma dualidade nem uma divisão do mundo em dois, mas a coexistência de duas realidades coexistentes “É nosso corpo como um todo que tem esse poder de vibração às forças do mundo”. O pensamento se dá nessa relação paradoxal de forças, um corpo que sente as sensações, e que põem em crise nossas referências e impõe a urgência de inventarmos novas formas de expressão. Por essa porta que não se fecha, entra em nós um mundo de sensações puras, marcam nosso corpo com signos do mundo que incorporamos ao nosso território existencial. Nós mesmos passamos por processos de desterritorialização e reterritorialização. Nosso mapa está em transformação continuada. Se pela primeira forma de perceber nos situamos por processos de subjetivação, na segunda maneira de receber o mundo entramos em processos de singularização. Somente se singulariza por “vibrações que não se reduzem às propriedades do sujeito”, são vibrações que produzem sensações nas propriedades que definem o sujeito.

O que faz uma singularização? O individuado é antes “um grau, uma intensidade, uma hecceidade”, é o que Deleuze diz em Lembranças de um teólogo.[1] Duns Scott leva o indivíduo da subjetividade a esse nível irredutivel da singularidade contida na expressão hecceidade. O indivíduo alcança a singularidade não por causa de sua extensão no mundo mas por se tornar um único onde nenhuma sinal se repete num outro. Não é a singularidade da forma, mas a singularização que faz fugir da forma. Nessa passagem de um sujeito subjetivado para um indivíduo individuado, abre-se uma crise que impõe uma revisão da paisagem subjetiva e objetiva. É que precipita aquilo que Rolnik chama de “subjetividade flexivel”.
São duas constatações.
A primeira é que os dois mundos (tonal e nagual) coexistem, são realidades paralelas.
A segunda constatação é que o deslocamento não se faz necessariamente com o auxílio de alguma coisa fora do sujeito. A questão no momento é o peiote, ainda servindo como um meio para se alcançar uma nova arma.


[1] DELEUZE, G./GUATTARI, F. Mille Plateaux (Tr. Vol. 4, p. 38.



[1] CASTAÑEDA, C. Porta para o infinito.  Tr. Luzia M. Da Costa. Rio de Janeiro: Nova Era, 1998, p. 104.
[2] Idem, p. 110.
[3] ROLNIK. S, Geopolítica da cafetinagem. In: Fazendo rizoma. Fortaleza: Editora Edra, 2008, pp. 25 – 44.
[4] ROLNIK. S, Geopolítica da cafetinagem. In: Fazendo rizoma. Fortaleza: Editora Edra, 2008, p. 28.

O fora não é o além-mundo



            As experimentações programadas com as drogas em Castañeda desfazem as interpretações e o significante. É impossível associar o cão do efeito-droga com o papai-mamãe. A droga agita o processo devir-animal, que não quer dizer nada além do que ele se torna ou o faz-se tornar com ele. Não só o devir-animal.
            Em Castañeda, há uma grande riqueza de devires-moleculares: “(...) o ar, o som e a água são apreendidos em suas partículas, ao mesmo tempo em que seus fluxos se conjugam (...). Todo um mundo de micropercepções que nos levam ao imperceptível.”[1] A ordem é experimentar, e não interpretar. Dom Juan adverte seu aprendiz de feiticeiro: “A coisa especial a se aprender é como chegar à fresta entre os mundos e como entrar no outro mundo. Existe uma fresta entre os dois mundos: o mundo dos diableros e o mundo dos homens vivos.”[2]
            A realidade entremundos se abre nos sonhos, sobretudo naqueles em que o sonhador se encontra acordado. É preciso aprender a arte de sonhar acordado. “Existe um lugar onde os dois mundos se sobrepõem. A fresta está ali. Abre e fecha como uma porta ao vento. Para chegar lá, o homem tem de exercer sua vontade.” Como dizem Deleuze/Guattari, talvez as crianças tenham a percepção desses entremundos, os loucos e os primitivos.[3] “Posso dizer que ele deve ter um desejo invencível de fazer isso, uma dedicação total. Mas ele tem de fazê-lo sem o auxílio de qualquer poder ou de qualquer homem.”[4] Ou seja, o experimentador usa a droga nas experimentações iniciais, mas deve aprender a “andar” sem ela. Assim como o próprio Deleuze defende: “Tentamos extrair do álcool a vida que ele contém, sem beber: a grande cena da embriaguez com água pura em Henry Miller: abster-se do álcool, da droga, da loucura, isso é o devir, o devir-sóbrio, para uma vida cada vez mais rica.”[5]



[1]  DELEUZE, G. e PARNET, C., Dialogues,  p. 60.
[2] CASTAÑEDA, C., op. cit., p. 233.
[3] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., L’Anti-Oedipe, p. 290.
[4] CASTAÑEDA, C., op. cit., p. 233.
[5]  DELEUZE, G. e PARNET, C., Dialogues,  p. 67.

sábado, 18 de maio de 2013

Potência mística II


O que esses experimentadores buscam? Não seria a dobra tão desejada? Se há um lado de fora, é dele que os feiticeiros mexicanos estão teorizando. Tal movimento, que decorre do fato de que essa dobra permite habitar o limite que traça as bordas do que somos, permite situar-nos em uma linha instável e arriscada, a linha lisa do lado de fora, na qual os contornos do familiar (tonal), imaginável e representável diluem-se em contato com o desconhecido, que é intraduzível e irrepresentável. “(...) É porque invoca verdadeiras situações psíquicas, dentre as quais o pensamento encurralado procura uma saída sutil.”[1]
Os feiticeiros buscam, talvez sem saber, uma perspectiva não binária e dicotômica, pois, entre o lado de fora e o de dentro da dobra, encontramos intercâmbios e inversões que desfazem as formas binárias por completo. Sob o efeito do mescalito, fazendo a consciência fugir, é o lado de fora que abre em si mesmo um lado de dentro, fazendo com que (um) outr,o que não é o mesmo dos processos de subjetivação, instaure outra ordem, de singularização, precipitando aquilo que faz diferir o ordenamento do sistema-percepção. A dobra só avança variando, bifurcando-se, metamorfoseando-se. Nada tem a ver com evolução; o experimentador não evolui nem regride, pois não há término de processo, só há continuação.
Dobrar, desdobrar, redobrar, porque os processos são continuamente penetrados por afectos de um lado e, de outro, recuperados por alguma forma de poder. Eles estão dentro dos processos esquizos; trata-se de uma política esquizofrênica. Territorializam, desterritorializam e reterritorializam. Volta-se ao mundo tonal constantemente. Não se pode ir ao mundo nagual por muito tempo sem os riscos de não poder voltar mais.
O mesmo se passa em relação à desterritorialização absoluta que nos precipita em espaços lisos de fluxos descodificados. Mas também não é o caso de se cristalizar no mundo tonal; as próprias dobras podem converter-se em obstáculos que impeçam cruzar a multiplicidade, a prolongação de suas linhas, a produção de novidade. O corpo organizado é obstáculo, mas é indispensável para que os sussurros do nagual cheguem até ele; o corpo deve seguir os sussurros do nagual, mas, para ouvi-los, é necessário “diminuir o diálogo interior”, a fim de ele possa fluir e expandir-se.
            Eles se lançam em operações de agrupamentos, agregações, composição, agenciamento, enfim, de concreções sempre relativas ao heterogêneo: corpos, palavras, discursos, animais, sons, juízos, inscrições técnicas, objetos que se mesclam, arranjam e formalizam configurações. Dobraduras que incorporam sem totalizar e internalizam sem unificar. Constituição de dobras descontínuas na forma de plissês, superfícies rugosas e estriadas, efeitos de agenciamentos coletivos de enunciação. Algo variável, produto de uma cadeia de conexões entre humanos, artefatos técnicos, elementos da natureza (água, sol, terra, ar e fogo), animais da floresta, o deserto, dispositivo de ação e pensamento.


A psicanálise não vê isso no caso de O Homem dos Lobos. “A matilha dos lobos tornava-se também um enxame de abelhas, e ainda campo de ânus, e coleção de buraquinhos e ulcerações finas (tema do contágio).” Outra lógica para além da lógica interpretativa entra em cena edipiana e confunde os dados da interpretação: seção, interseção, diagrama, um plano de consistência que é o plano de imanência pensada no sentido geográfico. A cena que se abre no Homem dos Lobos é um mapa, uma geografia, mas a psicanálise depende de uma história: “(...) são também todos esses elementos heterogêneos que compunham ‘a’ multiplicidade de simbiose e de devir”.[1]


[1]  DELEUZE, G. e GUATTARI, F., Mille Plateaux,  p. 305.



[1]  DELEUZE, G., Cinema 2 – L’image-temps,  p. 220.